quinta-feira, 30 de junho de 2011

Senilidade

Muitos anos depois, já idoso (embora anões sejam sempre idosos), Feliz se lembrava de Branca, que depois de algumas visitas tinha desaparecido. Não se falava mais dela. Mas, em algum momento entre o descanso da mina e o jantar, a memória começou a falhar e não conseguia se lembrar daquela madrasta má. Lembrava-se de Bianca falando dela; mas, em todas as vezes em que tentara envenenar a pobre criança, eles estavam fora. Pensando bem agora, tampouco se lembrava do príncipe. A memória continuava por curtos-circuitos e agora tinha a impressão de que ela desmaiara na primavera, quando não havia maçãs.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Floresta de Espinhos

O que os bardos nunca contam é que toda princesa tem uma ama idosa e muito esperta, que além disso não sabe guardar segredo. É claro que o rei mandara queimar todos os fusos do reino, condenando-os a anos de carestia por dependerem de tecido importado, muito mais caro do que os víveres que produziam. Mas algum dia a princesa soube do seu destino, e foi com mais ânsia do que curiosidade que ela subiu as escadas que levavam ao quartinho que escondia a única roca do reino. Afinal, a escolha era entre tornar-se ou não uma lenda.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Por que as crianças estão vestidas de sonho?

Ela tinha um objetivo muito claro: da meia arrastão aos cabelos cacheados a ferro e à bolsa gigante, tudo apontava para ele. Infelizmente parecia difícil de se enxergar: na confusão de minivestidos e botas caçador não havia como distingui-lo muito bem. Quando descobria um regime novo, a próxima refeição a quilo era uma decepção de pratos iguais ao dela. Uma piada nova, bem ensaiada, era ouvida com indiferença por um colega distraído. Não havia bibliografia disponível sobre o princípio da originalidade, se é que ela era possível num escritório de sétimo andar. A não ser pela janela do sétimo andar.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Casa de biscoitos

Era uma vez uma casa amarela, sobra de um ex-casamento ainda no litígio. Não importava, porque fora igualmente povoada por crianças crescidas que fingiam não ter saído de casa para estudar, mas que seus pais saíram para fazer compras e deixaram a casa só para eles por algumas horas. Mas, na cama dos pais, eram Sibila e Daniel que dormiam como irmãos.
         Assim habitada por quem esquecera o próprio endereço, a casa era um celebração a Héstia que prescindia das velas e cânticos das sextas-feiras. Mas, mesmo que ninguém se apaixonasse, não havia como adiar a vida adulta para sempre.

domingo, 26 de junho de 2011

Alugar o meu amor

Uma cena de crime tem 360 graus, todo espectador de C.S.I. já viu isso. O que não se espera é que um palco também tenha 360 graus: de repente o trompetista está logo atrás de você e o vocal perdido no meio da platéia, reclamando que estão passando a mão na sua bunda. O que não se espera é que um dia dos namorados seja menos triste por causa de dois sorrisos, mesmo sabendo que não eram só para você, e que um solo de sax resuma a sua vida. Pensando melhor, o único crime é o sorriso daquele vocalista.

16 de dezembro

Está terrivelmente frio, mas não ainda neva. A cidade é triste e vazia com os monumentos cobertos, e os cafés não ficam abertos até tarde como há seis meses. Não há nada para se fazer, mas ele tampouco pode ir embora; resta sempre uma esperança de que ela apareça na próxima esquina, desça do próximo trem. É preciso comprar um casaco, pois não sabe quantos dias será necessário agüentar o frio, escutando o eco das ruas semivazias. Conta os centavos para pagar um café.
         A mediocridade é mais suportável quando se pode suspirar, uma vez por ano, olhando o calendário?

sábado, 25 de junho de 2011

Os anos correrão como coelhos

Livros se escrevem na sua mente, muito antes que você aprenda a escrever. Eles te fazem vivar para poderem ser escritos, enquanto você acha que está escrevendo sobre a sua vida. As histórias que se contam na sexta à noite, diante de um café ou na mesa do bar, são as tentativas do livro de sair. – Finalmente se escreve o livro, que passa a fazer parte do mundo dos homens. O que fazer então com o beijo, com a viagem, com a namorada que eram o pretexto do livro? Como preservar o que era receptáculo e passou a ser essência?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Dido e Enéas

Há viajantes que encontram sereias no alto das pedras. Mas há ilhas em que as sereias se escondem, para que o viajante se sinta astucioso, convidando para um passeio alguém que já esperava pelo convite, porque sentara ao seu lado de propósito e porque era o seu destino.
         Há ilhas dentro da ilha: uma ilha onde se encena uma peça sobre uma vaca, uma onde se escrevem poemas sobre milk-shakes, outra onde vivem quiromantes. E, no alto da montanha, uma velhinha beija este menino na boca: apenas uma noite. – Porque as verdadeiras surpresas acontecem quando já estamos voltando para casa.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dulce de Leche

Tudo parecia maravilhoso, mas bastou atravessarem a fronteira para que começasse o pesadelo: um, amuado e inflexível, e o outro em prantos, sem conseguir entender. De repente, as mínimas coisas se amplificavam e mudavam de sentido: um bocejo, depois de quase quarenta horas de estrada, era um claro sinal de indiferença, de que o outro só estava ali por diversão; a fome era uma óbvia manifestação de egoísmo. De tudo o que poderiam ver na cidade, a única atração indisponível era a montanha-russa. Há uma boa razão por que muita gente não viaja junto antes de um ano de namoro.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Apresentação

Eu amei a literatura desde sempre. Alguém deveria ter me avisado de que escrever era um sonho obsoleto e que o mundo futuro não precisaria de poemas – mas não se deve confiar nos mais velhos. Durante muito tempo, eu não escrevi nada; ainda há momentos em que eu não escrevo nada, afinal existem poucas espécies de flores comestíveis. Mas o desejo permanece, e sempre retorna no primeiro sábado à noite depois do fim do namoro, diante da panela de brigadeiro ou na primeira segunda-feira de férias, tomando um capuccino no café semivazio: quando o mundo pára um pouco de buzinar.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Introdução

Contos de cem palavras podem parecer prolixos em tempos de Twitter. Também a própria literatura parece bobagem enquanto economistas e jornalistas já têm todas as respostas. Mas ainda falta quem nos aborreça com as perguntas que importam.
         No curso de francês, eu precisava escrever redações de duzentas palavras e estourava, todas as vezes. O limite é um exercício de repensar. Minhas melhores frases eram cortadas com um sentimento de decepção: foi como aprendi que o que eu tinha para dizer não era tão importante.
         Nenhum conto daqui terá mais nem menos do que cem palavras, tirando o título. Pode contar.