quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Projetos

Os dias longos são perfeitos para sonhar. Há homens que imaginam mulheres perfeitas, de corpos esculturais e personalidade submissa, o que explica o fato de não namorarem. Outros, no entanto, usam essa estratégia com melhores resultados: no caso dele, era uma vocação que não exigiria estudo nem esforço, apenas sorte. Os cursos de arte dramática eram primários demais para o seu talento, e pouco importava que morasse numa cidade que só tinha um cinema. Acreditava que, para se tornar ator, era necessário apenas dizê-lo em voz alta, e mesmo que jamais atuasse numa peça de teatro, acabaria sendo descoberto, eventualmente.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Esperança

Como todos os anos, ela escolheu o vestido branco, novo, e comprou também uma calcinha branca, à qual atou fitinhas amarelas e vermelhas. Deixou preparados o lombo de porco assado, o bacalhau e a sopa de lentilhas, e foi à praia equilibrando-se na sandália prateada (jamais fazia isso de chinelos), jogar uma dúzia de rosas brancas no mar. Ainda voltou para casa, para ajeitar os cachos de uva, as romãs e pôr a champanhe no gelo, antes de tomar banho e jogar sobre os ombros o chá de sete ervas. Então se sentou e esperou, até que o ano passasse.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Adolescentes

Como um velho guru, que convence as pessoas de que não devem comer alho frito, mel e salgadinhos de queijo, e subitamente elas começam a vomitar diante desses alimentos, ele exercia uma influência incisiva, embora nada sutil, sobre o grupo de amigos. Perto dele, não se falavam palavrões, nem se discutia política; os casais de namorados ficavam apenas de mãos dadas, de modo que suas próprias namoradas acabavam perdendo a virgindade com outros rapazes. Mas, acima de tudo, dois assuntos eram tabu: a faculdade onde ele jamais aparecia, e os pais que ainda o sustentavam aos vinte e nove anos.

domingo, 28 de agosto de 2011

Chuva

Era com uma deusa antiga, temperamental e instável, que decidia os destinos dos súditos conforme a vontade: namorados não se encontravam, jovens ansiosos perdiam empregos, mães corriam em busca de seus filhinhos. Em uma cidade em que ateus e cristãos, pagãos e budistas conviviam, ela era a única crença comum, que fazia todos erguerem olhos para o céu, apreensivos com a sua fúria. Erguiam-se templos: no alto de cada prédio havia uma estação meteorológica; como sacerdotes, físicos estudavam-na, tentando prever seus humores. Mas, apesar do temor, eles não a respeitavam: jardins eram cimentados e o lixo, espalhados pelo chão, diariamente.

sábado, 27 de agosto de 2011

Contos de cinema V

O tempo nunca é linear: o que acontece no começo, acaba se repetindo no final. Acordou no meio de um campo, cercado de coelhos mortos, nu. Não se lembrava de quem era ou de como chegava lá; não teve reação além de gritar de desespero e sair correndo. Os pés doíam, mas na primeira estrada o primeiro carro levou-o até a cidade mais próxima, um lugar tão estranho quanto aquele que acabara de deixar. Ele poderia ter viajado no tempo ou sido abduzido por marcianos: o tempo nunca é linear, o que acontece no começo, acaba se repetindo no final.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Contatos

Começou com uma conversa interessante, depois do primeiro simpósio, que continuou na pausa para o café naquela tarde. Como tinha a manhã seguinte livre, ele foi à mesma palestra a que ela disse que iria, e conversaram ainda mais no caminho do almoço. Acabaram se desencontrando à tarde, porque ela se apresentaria num simpósio e ela se inscrevera num minicurso, mas todos se encontraram no mesmo bar à noite; na manhã seguinte, ela apareceu na apresentação dele, e o sorriso dela o estimulou a falar mais e melhor. Viram-se finalmente no jantar de encerramento e se despediram com um beijo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

E o tempo engatinhar...

Escolha uma data. Qualquer data. Você sabe que, a cada 365 dias, ela retornará. E naquele dia, que pode até ser um dia comum, você se pegará refletindo: da última vez em que houve esta data, eu estava namorando aquele cara, eu ainda tinha aquele emprego, eu acreditava em tal coisa, eu tinha entrado naquela roubada. Para você agradecer pela passagem do tempo, inventaram recompensas: bolos, abraços, presentes, para você desejar que o tempo passe. Mas a parte mais importante é compreender a pessoa que você deixou de ser. E tentar ser, na próxima repetição da data, uma pessoa melhor.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Dias de Verão

Todo mundo já passou por isso, uma ou outra vez: a gente vê um filme, ou ouve uma música, e se apaixona, fica obcecada e começa a buscar loucamente mais sobre aquela cantora, aquele diretor. Mas, depois de algumas semanas, a paixonite acaba passando e entra no rol das distrações cotidianas. Não no caso dele. Seus dias eram, do final da manhã (dormia até bem tarde) até à noite, preenchidos pelos mesmos filmes, vistos à exaustão, mesmas novelas, pela música alta e por pesquisas aleatórias na internet. Assim acreditava ter muito que fazer e nenhum tempo para procurar um emprego.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Entre eles, todas as conversas eram sérias, profundas, fundamentais. Mesmo as conversas comuns retornavam sempre numa estranha forma de futurologia, e indicavam o que estava para acontecer, às vezes com anos de antecedência. Era uma existência emocionante, em que nenhum acontecimento era banal e qualquer hesitação era capaz de mudar o curso dos acontecimentos. Não havia um momento de silêncio, um gesto sem sentido; as longas horas passadas no banheiro, sentado no ponto do ônibus ou comprando meias após o almoço não existiam. Era uma vida estressante, em que todas as pessoas estavam apaixonadas e tinham um propósito na vida.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Tribos

Talvez o traço arquitetônico que distingue as verdadeiras faculdades seja, na verdade, o gramado em frente, onde os hippies tocam bongôs, os revolucionários pingam cartazes e todos fumam baseado. Onde passam estudantes de capa longa preta sob o sol escaldante, carregando livros em caracteres góticos, virgens pálidas em blusinhas cor-de-rosa, e onde circulam à noite garrafas de vinho barato.
         Porque a faculdade, antes de ser um lugar, é uma época: cada um escolhe em qual deseja viver, e mesmo quando acredita escapar de todas, basta um passo para fora para descobrir-se subitamente anacrônico, vivendo em qualquer tempo, exceto o futuro.

domingo, 21 de agosto de 2011

Comissão Organizadora

Todo congresso acadêmico possui duas metades, uma que exige muita atenção, outra que se faz espontaneamente. Durante meses, os membros da comissão organizadora contratam gráficas e bufês, separam blocos e canetas, verificam computadores, projetores e garrafas d’água; durante quatro dias, ficam de pé. Então os congressistas chegam e, imperceptivelmente, reúnem-se nos restaurantes em almoços de horas de duração, e concluem os simpósios em debates regados a cerveja. No último dia, o jantar de encerramento com lugares marcados e cardápio escolhido a dedo está semivazio, enquanto todos os professores que não organizaram o congresso lotam o boteco defronte até a madrugada.

Contos de cinema IV


Houve um tempo em que, para se encher um lago de sangue, era preciso pintar uma diva de verde; e um universo podia ocultar detalhes da irrealidade, como se o mundo em corres fosse apenas resultado de uma alucinação. Subitamente toda imagem concretista – planos geométricos regulares, pêndulos diante de espelhos, losangos com cores alternadas – é imbuída de significado: representação de uma paranóia, a repetição se torna obsessiva. Alucinado pela própria mimese, o artista não distingue mais os planos à frente e atrás da câmera. E tudo o que resta, no final, é a musa que fuma com os lábios azuis.

sábado, 20 de agosto de 2011

Prisioneiros de Azkaban

É até engraçada a freqüência com que bruxos e bruxas acabam tomando o metrô. Alguns até entendem o sistema de catracas e chacoalham sossegados de manhã até o trabalho em vez de utilizar os transportes mágicos. Absortos na leitura, alguns passageiros notam antes a menina de maquiagem preta e meia arrastão do que a calma senhora oriental que acaba de se sentar no banco preferencial.
         Mas há um outro feitiço em curso, que tampouco se nota. E enquanto muitos olham para a moça gótica, a idosa japonesa observa com curiosidade trouxas adultos lendo livros com fadas e unicórnios na capa.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Morango com Tequila

Ela cambaleou para dentro do banheiro e levou alguns segundos até se lembrar do que fazia ali. Esperou educadamente sem vomitar no pé de alguém; quando finalmente chegou a sua vez, quase desmaiou em frente à privada e um jato cor de laranja que poderia tanto ser marguerita quanto bile manchou o chão. Ela conseguiu se levantar e saiu andando um pouco mais firme, e se encostou junto à pia para retocar o gloss sabor morango. Entre o gosto do vômito na boca, do batom e dos cigarros, a custo se lembrava do gosto do menino que beijara minutos atrás.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A Minnie é noiva do Mickey

O mundo é cheio de segredos, gostariam de crer alguns; os imaginários de preferência derrubam governos e destroem reputações, enquanto os verdadeiros correm defronte nossos olhos ou sob os nossos pés.
Os Templários entram sempre.
         O que faz um mistério vendável é chamar uma tolice de conspiração: a virgindade de Maria, a descendência do Messias, fabricar ouro. Entrementes, os passageiros do metrô enfiam o nariz na revelação de segredos celestes sem perceber que eles mesmos funcionam como conduíte das correntes telúricas: uma pedra caída do céu. O que diverge melhor de um segredo do que proclamá-lo, deformado, aos quatro ventos?

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Na seção de Ciências Sociais

Aquelas bolinhas o deixavam estranho, os seus amigos diziam isso; mesmo assim, resolvia continuar tomando: as alunas da academia sempre sorriram para ele.
         Ao encontrá-la no barzinho, ela não tinha nada demais, e tomava um energético. Mas fez uma careta ao ouvir que era instrutor de musculação e um halo pareceu se formar em torno dela. Passou a segui-la até sua livraria preferida, todos os dias depois do expediente, onde ela lhe falava de caras de nomes insoletráveis, que tinham no Google explicações igualmente estranhas. Até que um dia encontrou-a sorrindo para um sujeito com um livro grosso na mão.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Jogo de espelhos

Meio trôpega, ela entrou no banheiro. Foi como mergulhar em uma piscina de água fria: o calor abafado da pista desapareceu e a música pareceu entrar em uma panela. O banheiro estava vazio, então abriu a torneira; mas, em seguida, limpou o rosto com o removedor e retomou a maquiagem: base, corretivo, iluminador, sombra, rímel, blush e gloss. Concentrada na tarefa, somente quando acabou é que encarou a imagem no espelho e se fez a pergunta: o rapaz lá fora era bonito, simpático e, pelo visto, rico. Porque ela só dormiria com ele se fosse o homem da sua vida.

domingo, 14 de agosto de 2011

Contos de Cinema III

Era uma vez uma pessoa que gesticulava muito e gaguejava mais ainda quando estava nervosa. E tinha problemas óbvios de relacionamento. Na verdade, problemas iguais aos de todo mundo, mas que pareciam maiores porque ele gesticulava e gaguejava, quanto mais tentava explicá-los. Então as mulheres impiedosamente se riam dele, ou o ignoravam, e seus amigos eram outros homens com problemas de relacionamento e dispostos a rir disso entre teatros e restaurantes e conversas sobre o cinema de Bergman e literatura russa. A questão é que o ser humano só aprende com os próprios erros e jamais com os erros alheios.

Contos de cinema II

Em algum lugar, há um universo feito de louça e baquelite, de cores desgastadas, em que todos se comunicam por meias palavras e olhos arregalados. Presos num edifício envolto por névoa, eles se alimentam de cerejas e de eventuais visitantes, e se ocupam com estranhas coleções – cópias do mesmo quadro e números de mágica –, versões estendidas de cartas de amor e a vida alheia. Ocasionalmente, um forasteiro vem atrapalhar o delicado equilíbrio, apenas para restaurá-lo em seguida, mais interessante, como um novo membro da ordem social, adaptado à dieta e ao cárcere. Em algum lugar dos esgotos de Paris.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Durante duas horas por dia, eles se sentavam lado a lado e, em cadeiras paralelas sobre uma plataforma diante de um abismo, encaravam o vazio. Vestiam-se com especial cuidado para a ocasião: o senhor mais velho usava terno e gravata, a mocinha um vestido novo, da moda, o jovem médico estava sempre de branco, o operário com o rosto sujo de fuligem; com as mãos nos joelhos e ombros imóveis, encaravam o vazio. Enquanto seus observadores suportavam o seu silêncio, ou reagiam com vaias, palavrões, ou jogavam objetos, de pipocas a pés de sapato, contra eles, impassíveis encaravam o vazio.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Primitivos

Como agricultores, eles viviam em função do tempo, perscrutando os céus em busca de sinais: frentes frias, cúmulos-nimbos. Em noites de temporal, não dormiam, permaneciam acordados assistindo o nível da água elevar-se perigosamente por cima dos sofás apoiados em tijolos. Mas, eventualmente, eles iam dormir. E concluíam ser impossível adaptar-se a outro endereço e a outras linhas de ônibus. E, como primitivos que ainda não haviam descoberto o calendário, assim que a estação passasse eles se esqueceriam das marcas d’água na parede e das crianças afogadas, e em outubro aplaudiriam o primeiro forasteiro que aparecesse pedindo votos e distribuindo panetones.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Executivos ao celular

Com o dedo em riste, ela parecia muito segura do que dizia. Alteava a voz, cada vez mais indignada, explorando novas imprecações, outros argumentos. É difícil dizer se o seu interlocutor ao menos acompanhava o discurso, mas suas roupas davam certa autoridade às suas palavras: um velho vestido florido, meia-calça e um casacão sob o calor de trinta graus.
         Pessoas passavam atrás dela, quase indiferentes, sem saber se a discussão tinha relação com a agência bancária. Ela pareceu ter terminado e quase foi embora, mas voltou ainda um segundo para xingar uma última vez o seu reflexo no vidro espelhado.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Amigas Eternas

Perambulando um dia pelo antigo prédio da faculdade, julgou ver um rosto familiar que lhe acenou de volta. Apesar de não saber de onde a conhecia, aceitou seu entusiasmado convite para um café e, durante uma hora, ouviu muitas histórias interessantes sobre suas viagens, sua tese e até o seu triste divórcio. Soube o que faziam os ex-colegas, quais continuavam na profissão e quais faziam outra coisa, até que uma colega se casara com um americano. Depois de se despedir, após alguns minutos de silêncio constrangido, se lembrou: ela a parara uma vez no corredor, perguntando onde ficava a biblioteca.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Ecos

Tanto quanto a pista de dança, aquele ambiente era repleto de sons: a menina que vomitava no último reservado, duas amigas fofocando entre risadinhas, uma outra chorando no sofá do canto, a maquiagem borrada. Da cabine da pick-up, tão distante, sentiam-se apenas as vibrações no chão. Estava sóbria, mas ainda sentia algo de errado: o banheiro rodava ligeiramente, e as vozes pareciam misturadas com a música. As colegas de trabalho cochichavam o tempo todo coisas que ela, que não as conhecia direito, não entendia – embora uma delas insistisse que ela beijasse um rapazinho do departamento de contabilidade, para “se integrar”.

domingo, 7 de agosto de 2011

Pra eu lembrar de ti

Noite fria de quarta-feira, um auditório fechado, e, com cento e cinqüenta pagantes sentados (ingressos esgotados em dois dias), foi quase como se a banda tocasse na sala de casa. Sábado à tarde, um raro dia de sol no inverno, um gramado no parque do Ibirapuera, entre negrinhos e bergamotas, e foi exatamente um piquenique em que alguém se lembrou de trazer um violão e uma caixa de brinquedos: em que as canções deliciosas já conhecidas sempre podem ter uma nova sonoridade, extraída da percussão dos objetos mais inesperados, enquanto o céu ia perdendo o azul em um pôr-do-sol espetacular.

Ano do Coelho

O horóscopo dissera que este seria um ano de conflitos, repleto de guerras, desentendimentos e grandes tragédias. Outra astróloga afirmara que, naqueles meses, as pessoas se apaixonariam, mas teriam apenas casos passageiros e ninguém se casaria. Um pai de santo previra poucos ganhos financeiros, muitas perdas e péssimos empregos para os poucos que conseguissem algum, e uma bruxa wicca recomendou várias precauções, porque as pessoas ficariam muito doentes. Enquanto digitava tudo isso em seu website, ele não podia deixar de sentir um pouco de remorso: afinal sabia, por experiência, que muitas pessoas obedientemente seriam infelizes durante cinqüenta e duas semanas.

sábado, 6 de agosto de 2011

Não olhavam uns para os outros. Quando interrogados, reagiam com os olhos fixos no vazio e respostas aprendidas há muito tempo. Quando confrontados, punham-se a pular, espernear, fazer malabarismos de circo. Alguns não tinham nome: chamavam-se “ele”, “ela”, “a criança”. Citavam coisas sem contexto, de um texto fora dali. Mudavam de roupa na frente uns dos outros, e subitamente começavam a falar de outra coisa. No fundo, nada parecia importante, a não ser o fato de que estavam sendo observados o tempo todo. Como se, quanto menos sentido fizessem suas ações, mais aprovação elas teriam, ainda que eles não enxergassem.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Ritual

Quando abriu os olhos, a primeira coisa que percebeu foi a dor de cabeça, que entrou junto com a luz do dia, através dos seus olhos. Aos poucos se lembrou de quem era, de onde estava e que era dia primeiro de janeiro. Lembrava-se do jantar, lauto como não se comia nem no Natal: um porco assado, peixes e camarões, quilos de frutas, sopa de lentilha, tudo consumido segundo instruções repetidas em voz alta. Todos usando branco. E champanhe: um brinde para cada pedido. Percebeu então que este ano começaria (e provavelmente terminaria) como todos os outros: indigestão e ressaca.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Hikikomoro

 Era um desses dias em que a gente sai de casa se sentindo ótima, mas ela mal fechara o portão quando viu o seu ônibus passar, no ponto lá embaixo. Ao chegar no escritório, reencontrou o seu trabalho do dia anterior, com anotações do chefe mandando refazer tudo. Foi aborrecida almoçar e demorou a estranhar o silêncio em torno dela, mas apenas às cinco horas uma colega veio contar que seu ex-namorado noivara a colega de departamento. Chegou em casa e, ao olhar em volta no apartamento minúsculo, percebeu que não tinha motivo nenhum para sair de casa. Nunca mais.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Contos de cinema I

Ao terem problemas de relacionamento, homens tornam-se humoristas, mulheres tornam-se psicopatas. Eles os transfiguram em piadas com a Estátua da Liberdade. Elas ameaçam seus amantes e são assassinadas por eles, ou traem seus noivos sem coragem de desmarcar o casamento, ou se envolvem numa relação a três com um artista plástico e sua ex-mulher. Eventualmente, elas voltam para casa, para a sua ilha e suas universidades, para seus táxis, para os almoços em lojas de grife e jantares de caridade. O destino de cada uma é continuar infeliz, porque nada é mais traiçoeiro para alguém do que suas próprias armadilhas.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vampiros ao sol

Não se fazem mais vampiros como dantes, quando à virgenzinha nada restava além de gritar por socorro, claro que em vão. Em vão se dizia que vampiros não brilham ao sol, tampouco importava se era verossímil uma vegetariana parecer apetitosa a um bando de hematófagos, o que seria um bom motivo para voltar a comer carne. E muito menos que às vezes eles parecessem quase bronzeados, muito mais nítidos do que os humanos que entre o escritório e o túnel do metrô só tomam uma rajada de chuva, mas crêem que os únicos mortos-vivos se escondem debaixo do seu braço.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Guarda-chuvas

Vista de cima, a cidade era uma mancha acinzentada, com manchas metálicas que se moviam. Aos poucos, só se via o reflexo das nuvens nos espelhos d’água que cresciam de forma assustadoramente rápida, e círculos coloridos que identificavam quem estava embaixo: as moças estilosas pelos roxos e pretos de bolinhas, as periguetes pela estampa de oncinha e a foto da Marilyn Monroe, as senhorinhas pelas flores e cores meio desbotadas, os rapazes pelos pretos desconjuntados, e os desprevenidos pelos sacos de supermercado. Mas todos tinham o mesmo passo apressado e ansioso e a mesma disposição teimosa em voltar para casa.