domingo, 31 de julho de 2011

Só enquanto eu respirar

Tinha mais gente se apertando do que no show do Pato Fu, na abertura do festival. Tinha mais gente batendo cabeça do que no show do Sepultura. E mais gente maquiada na platéia do que no palco. E, inesperadamente, era a apresentação do Teatro Mágico: surpreendente e sensacional, nos transformando novamente em crianças na expectativa da próxima surpresa, no fascínio da acrobata que parece suspensa no ar diante do palco e na esperança de, a partir do dia seguinte, escolher personagens melhores para representar; de viver num mundo onde errado é quem fala correto mas não vive o que diz.

Na chuva, quando a chuva vem

Quando cheguei, o guitarrista improvisava “Tico-tico no Fubá”, mas era apenas a passagem de som. O show atrasou em pelo menos meia hora, e o público ficava impaciente: para ver Marcelo tocar acordeão, para ouvir Laura cantar e sorrir, e para acreditar na felicidade; prontos para receber a chuva que se aproximava da serra que envolve o vilarejo. Por que chove em tantas canções do Jeneci: chove à meia-noite e meia, enquanto ele espera alguém, enquanto ele enfrenta uma tempestade emocional; se entristece quando a chuva teima em não cair e finalmente ele dança na chuva, quando a chuva vem.

sábado, 30 de julho de 2011

Paranapiacaba

Bastaria continuar o trajeto pela linha férrea que chegaríamos, da mesma forma, ao vilarejo encravado no meio do vale onde a réplica do Big Ben indica o local certo. Exatamente no ponto em que a placa indica “Local Sujeito a Neblina” a umidade da serra começa a descer e a nublar a paisagem. Nos dias secos de inverno olha-se para cima e o que se vê são montanhas e estrelas: de dia, as montanhas ocultam que estamos em plena região metropolitana; à noite as estrelas indicam o complicado caminho de volta. E entre o dia e a noite, a música.
(A foto acima é de propriedade de Anderson Sutherland)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Itaim Bibi

A gente tem sempre coisas demais para resolver: pagar, assinar, pedir para alguém assinar. E pouco tempo para não ter pressa. Andar pelas ruas de um bairro desconhecido, olhar as vitrines de lojas estranhas e ver adolescentes usando roupas que antes você só viu em revistas; um mundo em que todos os homens usam terno e os atendentes são gentis. Sentar em uma mesa qualquer com vista para a rua, pedir um café e assumir seu status de desocupado, ou seja, escrever. E igualmente o seu status de obsoleto: escrever a mão sentada ao lado de uma fileira de iPads.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Tente apenas uma vez

A melhor coisa em uma viagem ao futuro é que ele se parece com aquela barra de chocolate que mudou o nome de Lollo para Milkybar, mas cujo sabor continua exatamente igual. Sempre que alguém viaja no tempo, passa estranhamente despercebido, apesar da máquina do tempo ser estranha e barulhenta, e observa fascinado as diferenças superficiais, porque o futuro é sempre esteticamente fantástico. Mudam os meios de transporte e de comunicação, e às vezes as pessoas vestem outra moda; mas se olham nos mesmos espelhos de há dois mil anos e dizem que no dia seguinte começarão a agir diferente.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Manual de uso para a capa da Sheila

Quando passamos muito tempo neste lugar, nos transformamos em uma categoria particular de fantasma: pessoas que ninguém enxerga, mas que ao mesmo tempo não enxergam ninguém. E talvez não damos conta do quanto é perigoso nos acostumarmos a sermos invisíveis e ao fato de que ninguém percebe quando estamos ali – e tampouco quando não estamos. Há, entretanto, uma jouissance em ser invisível: com o celular desligado, sem Twitter, não há nenhuma pessoa no planeta que saiba dizer onde você está. E, enquanto você escreve num café qualquer, a irrelevância do seu insight e da sua cólica ficam ainda mais evidentes.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Não é o prédio que tá caindo

Olhamos de cima os motoristas aprisionados em suas latas de sardinha e a energia gasta em trocar as marchas e manter o pé na embreagem, enquanto existem formas mais felizes de aproveitar o tempo que a incompetência da administração pública nos faz perder: com o aparelho em MP3 fazemos um videoclipe alternativo praquela música antiga do Sonic Youth; travamos uma longa discussão imaginária com Tom Zé e Umberto Eco sobre o destino do livro na era digital e o significado de uma letra do Cérebro Eletrônico; e, com o bloco de notas no celular, escrevemos o próximo texto pro blog.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Um terral que precede o chover

Um show às duas horas da tarde de domingo, em um dos palcos menores, pode parecer uma atração secundária. Não importa: depois que desci aos tropeções o caminho do vale em direção à vila de Paranapiacaba, ao dobrar a esquina da rua da Estação, foi o coro do público que me levou à direção certa. Nada mais improvável do que cantar junto uma canção sobre uma cidade sem inverno enquanto a neblina cobria no meio da tarde a visão dos morros em volta e sopra o vento úmido: o calor está presente e não se dispersa no reino da alegria.

It's just 'til these tears have dried

Fala-se de uma pessoa intensa como alguma coisa ruim. Eu não consigo ver nada de errado nisso.  Errado é fingir ser uma coisa que não é. Errado é ter sangue de barata.
Me irritam as imagens de Amy no palco bêbada e tropeçando. Há um acervo igualmente grande de vídeos dela cantando linda, afinada e de pé. Se ela fosse tão porralouca o tempo todo não teria podido compor e gravar três discos inteiros: é quase sádico como se esperou que ela finalmente fracassasse, como se a morte fosse de alguma forma o seu fracasso e não talvez uma escolha.

domingo, 24 de julho de 2011

And now the final frame

O mito é uma categoria discursiva, que se constrói através da repetição. Tudo se resume a produzir uma história que valha a pena recontar; de outro lado, nada é mais perigoso do que acreditar no mito e transformar-se nele: acreditar que é necessário viver de coração partido; acreditar que é necessário sofrer e jamais estar sóbria para criar. Até que ponto um indivíduo tem consciência de que está prestes a se tornar um mito, é algo que nenhum deles jamais nos contará: que estranhos pensamentos, no momento em que se parte para o desconhecido, ocorrem ao indivíduo antes do mito?

Little Trouble Girl

Como um curso de imersão é, na realidade, um curso de emersão: você passa um dia inteiro discutindo problemas reais, questões da realidade, a necessidade do real e, de repente, quando sai à rua atordoado pela animação das conversas e pelos pãezinhos do coffee break descobre que, neste meio-tempo, houve um atentado terrorista, uma cantora famosa morreu e o tempo chuvoso da manhã se transformou em um sábado de sol. Você sai pela rua com sua roupa de astronauta entre as pessoas calmas e coloridas passeando e sabe que o mundo não percebeu que você esteve fora todo esse tempo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O melhor amigo de uma mulher se chama Alfred Ritter

Por que continuamos trabalhando em empregos medonhos e suportando chefes idem e colegas que rondam nossas vidas em ersatz à ausência delas próprias, apesar da angústia de toda segunda-feira de manhã? Por que nos rendemos aos apelos de ex-namorados canalhas e carentes só por aquela trepadinha logo depois dele terminar com a gente? Por que, quando ligamos a televisão, existem coisas como luta na espuma e apresentadoras comparando um vulcão a uma bala de menta? E, principalmente, por que tudo isso parece fazer sentido em torno de uma garrafa de cerveja, uma porção de coxinhas e um coro de risadas?

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Adaptação

Você corre feito uma condenada para depois ficar cinco minutos inteiros parada no semáforo por culpa de um engenheiro filho da puta que nunca andou a pé na sua vida, e que sentado num escritório ou no carro climatizado não pensa se aquilo não funciona. Você fica sem comer diante dos novos colegas de trabalho porque ninguém que montou o cardápio do restaurante imaginou que poderia existir um cliente vegetariano. Alguém disse que esta é a era da confiança: para morar num prédio, é preciso confiar no arquiteto que o projetou. O que fazer quando não se confia em ninguém?

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Agridoce 1:47

Todo mundo tem um monstrinho de estimação. No caso dela, era um monstrinho que vivia encolhido e triste, e que só acreditava receber atenção quando ela estava encolhida e triste também. Com freqüência ela o levava para passear: nas festas, nos cafés, nos shows ele estava discretamente escolhido junto ao seu pé ou atrás de seu ombro, farejando tudo o que pudesse recolher de alimento. Pois se alimentava de pedacinhos quase insignificantes, que ele cultivava dentro dum copinho de leite como kefir, antes de comê-los, para que qualquer migalha de desatenção crescesse e o alimentasse até ele a engolir inteira.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Museu de Novidades

Achou que seria difícil ficar longe da galeria, mas apagando-se alguns detalhes mal se notava a diferença. Estavam ali os espelhos em ângulos desconexos, que deformavam a pessoa, parecendo unir sua cabeça ao corpo de outro observador. No ambiente seguinte, espalhavam-se pedriscos pelo chão, obrigando os visitantes a andarem rente à parede, e depois via-se o jardim de pregos que seguravam fios esticados até o teto. Houve, é claro, as críticas furiosas e as reclamações de sempre: de que era pedante, ou de que simplificara sua visão. Mas já aprendera a ignorá-las, e a cafeteria pagara muito bem pela decoração.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Acaba em pizza

Diziam que no Brasil se faz pizza melhor do que na Itália. Todo mundo que foi a Roma sabe disso. Então, começaram a dizer que no Brasil ninguém entendia de pizza como os paulistanos. Da Mooca. Foi quando um jornalista resolveu eleger a melhor pizza de São Paulo, uma cantina pacata que passou a receber hordas de turistas vindos de ônibus de toda parte do Estado, sempre atônitos com a aparente indiferença dos habitués do lugar que, fazendo DR ou assistindo futebol, pareciam não se dar conta de que estavam mastigando aquela que deveria ser a melhor pizza do mundo.

domingo, 17 de julho de 2011

Bocejo

Ele a encontrou sentada no sofá do hall do cinema, de pernas cruzadas, e um pé da sapatilha escorregara para o chão. Perguntou o que ela queria fazer. Ela não sabia. Havia um filme iraniano, um espanhol e uma animação canadense. Tinham inaugurado um café novo e dois restaurantes, e uma conhecida lançara um livro que só se vendia em determinada livraria. Uma colega de trabalho dele expunha numa galeria alternativa próxima. Enquanto enumeravam, ela observava os joelhos dela que saíam da bermuda. E pensou no dia em que poderia beijá-la sem ter que usar um filme iraniano como desculpa.

Cafefilia

Nada é simples quando se leva a sério a pausa da tarde. Tudo começou de forma inocente, quando por acaso alguém lhe ofereceu um cafezinho com um sabor diferente – e ela passou a perseguir os melhores blends e os cafés onde se servia das últimas máquinas. Mas, nos lugares em que se moía o melhor grão, os bolos eram secos e o pão de queijo era exposto apenas por formalidade. Levava meia hora por dia para caminhar do bom salgado ao melhor grão, mas ninguém parecia notar a cadeira vazia diante do computador. Até que o blend correto continha arsênico.

Só acordar depois do meio-dia

Tudo é contado pela perspectiva do dia seguinte: ele acorda do lado de fora da porta, do outro lado do espelho, e se recusa a sair da cama. No meio do caos do burburinho sonoro do Baixo Augusta, entre sons de brinquedos irritantes dos camelôs da 25 de março, de eletrodomésticos com defeito e de anões de jardim, acrescido de uma boa dose de autoironia e de uma orgia de referências musicais, ele tenta se lembrar ou esquecer do que aconteceu. Se gente saudável vem tocar do país inteiro, ressacas e arrependimentos é que formam a mais paulistana das bandas.

Estação Ana Rosa

No chacoalhar monótono dos trilhos às quatro da manhã as portas se abriram acompanhadas de um sinal sonoro, abrindo-se na verdade para o espetáculo: dos assentos de dentro do trem podia-se distinguir a massa soluçante de duas sombras unidas em um abraço no banco da plataforma. Depois de alguns segundos, percebeu-se que era ele quem chorava, o rosto manchado de lágrimas, enquanto ela, soluçava explicações e desculpas. As cortinas se fecharam e, ao se abrirem novamente, exibiram apenas a mesma apresentação de trabalhadores e baladeiros insones. Há alguma coisa de errado com casais que decidem terminar numa estação de trem.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vagões vazios

Há muitos dias estranhos para se andar de metrô, mas nenhum é tão estranho quanto o sábado de manhã, quando há passageiros que vão para o trabalho, sonolentos e com os cabelos molhados, e que voltam da noitada com os olhos apertados de ressaca, tentando não dormir e perder a estação. Quando ele observava os garotos ainda com cheiro de perfume e cigarros, sentia uma inveja que tinha uma ponta de saudade. Quando ela via os trabalhadores através do véu de cabelos desarrumados, lembrava-se das longas manhãs passadas no cursinho e já não conseguia compreender por que eram tão importantes.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Não espere o fim

Bons shows costumam ser curtos, pela própria natureza de tudo o que gera felicidade. Shows de bandas novas também, pela natureza do que ainda existe em potência. Sorrindo em delicadeza e confiança, os amigos tocam durante o que parece durar um minuto, como numa apenas brincadeira para insinuar a grande banda que está por vir, os refrões que só quem for morar na lua não vai conhecer. A lembrança é mais longa que o momento e, um dia, ninguém vai acreditar que você os ouviu tocando num dia de semana à noite, diante de uma platéia pequena mas já entusiasmada.

Banco cinza

Ela já tinha se sentado quando percebeu o homem ao seu lado, e então viu porque aquele assento estava vazio e as pessoas em volta desviavam o rosto com uma careta. O homem usava uma calça rasgada numa das pernas e segurava vários sacos de supermercado; é certo que o cheiro era ruim, mas às seis da tarde ele passaria despercebido. Achou indelicado se levantar, afinal o sujeito não estava nada de errado: não estava pedindo dinheiro e com certeza pagara a sua passagem. Ela desceu dali a três estações, e se perguntou se ele vinha ou voltava do trabalho.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Catracas e trilhos

No meio da multidão que se acotovelava em plena hora do rush, os dois misteriosamente se enxergaram a metros de distância, e correram um para o outro: os dentes se bateram na empolgação do encontro e a bolsa dela caiu no chão, mas nenhum dos dois se importou enquanto o beijo se prolongava com gosto de paixão nova.
         Aborrecidas, as pessoas em torno resmungavam sobre gente que fica no meio do caminho, mas o coração dela ainda batia descontrolado, e ele faltara ao trabalho para vê-la. Há alguma coisa de errado com casais que se conhecem numa estação de trem.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Terminal Barra Funda

Quatro anos. Este fora o trato.
Ela subiu melancólica no ônibus, preparando-se para as longas horas de viagem. Papai tinha medo de que ela viajasse de avião. Ela tomara o caminho mais longo de propósito, despedindo-se dos lugares preferidos. E, agora que realizara o seu desejo de estudar em São Paulo, poderia voltar para casa e para a empresa do papai, que afinal se convencera de que aquele capricho poderia ser útil. Olhou pela última vez a avenida Paulista, os cinemas e os cafés, todos cheios, que os colegas não entendiam por que ela amava tanto. Então desceu do ônibus.

domingo, 10 de julho de 2011

Mas roubar o meu Blue Label

Apaixonar-se é um processo instantâneo. Entre os milhares de cheiros, de sons e de all stars que nos rodeiam todos os dias, há aquele que, por alguma razão envolvendo uma combinação de física, psicologia e uma garrafa de uísque, nos fisga e se torna parte das nossas vidas para sempre.
Conquistar, no entanto, é uma tarefa longa e árdua: envolve logística, noites insones, amigos e uma quantidade sempre inacreditável de caixas de equipamento. Vendo-os entre terminais de embarque, shows em outras águas territoriais e câmeras digitais, a gente se pergunta, afinal, a que horas esses meninos conseguem viver do ócio.

É proibido fumar

Há uma única mesa do lado de fora, exposta ao vento e à chuva, que até há pouco tempo era a última opção dos clientes solitários, geralmente mais confortáveis nos amplos sofás e poltronas gastas. Mas frases e, sobretudo, papéis são poderosos: este conseguiu empurrar quase todos os clientes pra o exíguo terraço que, mesmo nos dias de pior tempo, ficou lotado. Do lado de dentro, outros clientes se sentavam ainda mais comodamente, sem paisagem e sem ter que com quem flertar. Sob a garoa fina que dominou a primavera naquele ano, entre nuvens de fumaça também reinava o silêncio.

sábado, 9 de julho de 2011

Francesca


O livro, pretexto de todo o pecado, caído para o lado, desaparece e funde-se com o chão. Do chão emergem os pés numa leve contração do corpo excitado, que, apesar de vestido, parece nu, envolvido pelos braços fortes que quase a erguem do solo. Ele se inclina de modo a envolvê-la com o seu corpo como uma serpente. Doce é o suplício e vale a danação eterna: beijando-se para toda a eternidade, mal se vê o talho na carne produzido pela espada do marido traído. A paixão é mais forte do que a moral, e a condenação só a intensifica.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Arte moderna

Ombro a ombro diante de cada quadro, os olhos observam atentos; os pés se movem no mesmo ritmo lento e desajeitado e os olhares seguem sempre as mesmas linhas. Lá fora, no parque, os passarinhos chamam. Em resposta comenta-se a respeito da expressividade das cores, de luz incidindo sobre as esculturas, de pontos de fuga, de naturezas-mortas. Encostada junto à porta, há uma escultura imóvel em tecido azul, que entretanto suspira. Indiferente a tudo, apenas uma coisa a movimenta, como uma estátua viva de parque que reverencia os turistas: quando uma criança se aproxima, grita: Não pode tocar nos quadros!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Pinacoteca

Havia muito tempo que ele perambulava, à toa, pelos corredores do museu. Não aparecia em horários fixos, e às vezes passava muitas semanas sem ir lá, quando os seguranças acabavam sentindo falta dele. Mas sempre voltava, parecendo apenas esticar as pernas, olhando para as telas com indiferença, circulando entre os maiores artistas sem notar nenhum: pintores holandeses, Picasso, gravadores orientais. Como pagava ingresso (entrada inteira), não havia porquê impedi-lo. Até que um dia um dos seguranças, seu amigo de anos para quem sempre pagava um café, notou que ele olhava para as paredes, o espaço em branco entre as telas.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Bife de chorizo

A princípio, ninguém a julgava pela aparência: esta nem havia para ser julgada. Mas, quando se percebia que não comia carne ou a ouviam comentando um filme francês, chegava-se a conclusões inexplicáveis. Em aparência, era um problema de limites: ela podia ser esquisita à vontade, desde que não humilhasse ninguém citando, por acaso, alguma coisa que os outros não conhecessem, e podia até ir a um churrasco às vezes, contanto que assinasse petições contra o abate cruel. Quando percebeu, havia gente controlando tudo o que falava e comia. – Sua retaliação tornou-se ler romances russos enquanto retalhava um pedaço de picanha.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Moema

Uma onda bate ainda no corpo inanimado, não se sabe se de exaustão ou já morto. Há flores no seu cabelo, e as penas da sua tanga estão caídas num ângulo estranho, algumas já arrastadas pelas águas; seu rosto, como o de alguém que nunca fora notada, não pode ser visto.
         A escultura horizontal nos deixa ver o movimento da maré, mas não se sabe a distância da praia, ou a quantas milhas se encontra o navio. Seu abandono é absoluto, e seu estado solitário não tem início nem fim. Vista de cima, apenas um corpo abandonado, engolido pelo mar.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Arte contemporânea

O grande desafio das suas obras era a técnica. Perdia um tempo precioso aprendendo elétrica e montando peças. Um delicado complexo de fios, baterias e objetos díspares nunca podia ser transportado por mãos ignóbeis e insensíveis à arte, ainda mais quando havia fluidos envolvidos. Mas outro desafio, este menosprezado, era a descrição: quando o recipiente de vidro com água e anilina, canudos coloridos e soprador de bolhas e o pote de cerâmica em banheira de chocolate substituíram o óleo sobre tela, os curadores começaram a dizer que não havia espaço na plaqueta, a não ser que a obra ficasse anônima.

domingo, 3 de julho de 2011

Arte pós-moderna

O pátio da escola de arte ficou em obras durante semanas: pedreiros iam e vinham, carregando imensas tubulações de várias larguras que eram serradas ali mesmo e depois encaixadas em ângulos; empilhavam-se tijolos a um canto, enquanto em outro misturava-se argamassa. Latas de tinta permaneciam abertas, exibindo várias cores: branco, cinza, laranja.
         Os colegas passavam ansiosos, observando a movimentação, na expectativa do que ali surgiria. Discutia-se a procedência da obra, faziam-se apostas. Até que um dia, sem aviso, tudo desapareceu: o pátio voltou ao que era antes, sem tubulação nem tijolos, sem argamassa nem tintas. (A instalação eram os pedreiros.)

sábado, 2 de julho de 2011

Leda

De rosto virado para o lado e palma para frente, ela fecha os olhos: sua respiração está suspensa e ela só espera que ele vá embora. Os dedos dos pés apontam para trás, reforçando o gesto de recusa. O que a atormenta? Preparada para o banho, todos os seus músculos se retraem, com frio, fragilizada. Na expectativa, cada segundo se petrifica em eternidade diante da ameaça invisível. Vista de qualquer ângulo, não se sabe se ela tanta resistir ao desejo do outro, ou ao próprio, mas é nesse exato instante do tempo em que ela decide se cederá ou não.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Ventríloquo

Por causa dos anos de trabalho pesado, ela conhecia muito bem os atalhos para a saída da cidade. Por isso, quando sua irmã saiu de casa sem o dedo do pé, bastou correr através dos quintais e, quando a carruagem real passou pelo arco do portal, gritou: Há sangue no sapato! Quando sua outra irmã foi embora com o calcanhar mutilado, precisou correr um pouco mais; felizmente depois, na euforia de ver um pé inteiro calçar o escarpim, o mensageiro real, não muito brilhante, não percebeu que o suor fizera o sapatinho deslizar mais facilmente: ela nunca mais precisou prová-lo.