O melhor de uma festa é esperar por ela, como dizem nossas velhas tias. De vestido azul e botas de salto ela percorria a rua onde a atmosfera se enchia cada vez mais de expectativa: era sexta-feira. O vento anunciava que o tempo mudaria de manhã, e era com arrepios que ela descia a rua, olhando às vezes para trás numa segunda natureza de metropolitana nata. Os vendedores de cerveja nas calçadas, de cachorro-quente na traseira dos carros e o cheiro da maconha nas esquinas lembravam, estranhamente, que aquele asfalto já fora terra e aquele sítio considerado calmo e longíquo.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
Mar de leite azedo 1:23
Há dias em que é mais fácil ser triste: domingos, principalmente. E domingos de chuva, em que o mundo se aquieta e se esvazia e desaparecem as desculpas para não se pensar na morte. Não se recomenda olhar no espelho, de onde espíritos malignos e fantasmas de garotinhas costumam sair para assombrar. Tampouco sair para fazer compras, porque a multidão, as luzes e o ruído só fazem o apartamento parecer ainda mais vazio, quando voltar. Só esta alçar a si mesma, com a delicadeza de quem pinça um pelo encravado, da atmosfera sufocante de viver consigo mesma o tempo todo.
Menina 2:51
Enquanto ela subia a rua, cujas esquinas já se enxergavam iluminadas por um pedaço de sol, exausta e começando a ficar de ressaca – era incrível a quantidade de sujeitos sem noção que se aproximavam segurando latas e abrindo os braços. Havia muito tempo, ela achava graça neles e sentia até pena do olhar carente de cada um. Mas agora, caminhando em direção ao apartamento meio vazio – na parede a marca da parede que fora tirada, os livros empilhados, uma camiseta ainda no chão e a mesa sem computador – só desejava a paz. E não se apaixonar, por ninguém, nunca mais.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Beleza Americana
Diante do seu próprio nome escrito em fogo há meninas que se assustam, outras que ficam lisonjeadas. Diante de uma câmera ligada, ainda que não visível, há meninas que abrem as cortinas e o sutiã e dançam na esperança de que o vídeo vá parar na internet. Outras se escondem. Mas, de costas para a câmera, traída pelo espelho, ser objeto de atenção a faz sorrir. E ele, do outro lado, capta com a digital o sorriso no canto da imagem, como se capta uma pomba morta na sombra de um avião que passa: o verdadeiro sorriso não se exibe.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Sequela
Ele vagueava pela rua, mas estava protegido pelo seu cobertor. Graças a ele podia explicar àquelas pessoas todas o que elas estavam fazendo de errado, mas apenas o encaravam sem entender. Já não se lembrava direito, mas houvera um tempo em que àquela hora a rua agora repleta de gente estava calma e vazia, com exceção das amigas que trabalhavam na calçada. Quando o viam recolher latinhas de cerveja jogadas no chão, atravessar a rua descalço ou acomodar-se sob um pórtico, tentando dormir na calçada lotada de notívagos barulhentos, era mais fácil acreditarem que sempre fora apenas mais um sem-teto.
Dinheiro
Ela desceu desesperada a rua do mesmo jeito que subira ofegante as escadas do metrô enquanto os sapatos novos doíam-lhe nos joanetes e rasgavam a pele dos calcanhares. Sem mal respirar ela chegou à recepção do prédio onde foi fotografada antes de entrar no elevador sem botão que já sabia o seu andar. Mas foi ao abrirem-se as portas do elevador que o ar fugiu-lhe dos pulmões: o pavimento dourado se estendia até onde não podia mais ver e o seu futuro chefe recebeu-a com ar enfastiado enquanto ela tentava a custo disfarçar o suor e o sangue nos pés.
Tempo
As horas se passavam de forma imperceptível às vezes: entre o final do dia fazendo as unhas e a escova, o entardecer comendo um sanduíche na lanchonete da esquina e enrolar na porta da balada até dar meia-noite – porque ninguém quer entrar primeiro e dar pinta de que está louco para se divertir. Entre o primeiro show e o segundo, a apresentação de um DJ novo e mais uma bebida enquanto um carinha passa a mão no seu cabelo e insiste em te paquerar, um dia você percebe que dez anos se passaram e ninguém te disse quando ir embora.
606
Eles chegaram e ocuparam uma mesa vazia, quase ordeiramente: dois rapazes e uma moça, todos de All Star e camisa xadrez. Ela em seguida se levantou e pediu uma cobertura vegetariana, enquanto seus companheiros conversavam calmamente. Aos poucos chegavam os outros amigos, de pescoço comprido para ser se a balada na frente já não estava aberta, que sem pudor puxavam mais mesas, quase bloqueando a entrada. Ao bater meia-noite levantaram-se todos com um estrondo, puxando as cadeiras e em um instante todas as mesas e cadeiras estavam na posição original enquanto as duas únicas meninas do grupo retocavam o batom.
Gente Grande 0:39
Por que ela queria tanto que eu fosse adulta? Uma vez, no meio da festa, me puxando pelo braço do meio da roda com as outras crianças. Um pequeno discurso, na maior parte incompreensível, sobre pessoas crescidas que não precisam de amigos. Os brinquedos escondidos no sótão e a Barsa no lugar deles. As histórias contadas para as visitas, inventadas, sobre a minha precocidade. A roupa cheia de rendas para eu não me sujar, o cabelo armado com grampos para eu não me mexer. E assim, limpinha e quietinha, séria e sozinha, no canto do salão, fiquei igualzinha a você.
Meu Precioso 3:10
Quando ele não estava bêbado, estava de ressaca ou reclamando de que estivera bêbado ou de ressaca e que não se lembrava de nada. Sua mente parecia um borrão de tinta, no qual a lembrança dela emergia ocasionalmente através de uma mensagem de texto, a que ela respondia apenas para se irritar depois quando ele não escrevia de volta ou com suas respostas incoerentes, muitas vezes pornográficas; ao sentir sua voz irritada, pedia desculpas sem saber o porquê e então desaparecia de novo. Até que, cansada, ela desapareceu – e com freqüência ainda bêbado ele contemplava o número dela no celular.
No tempo da maldade a gente nem tinha nascido
Há algo de irresistivelmente chique em tudo o que toca Chico Buarque: o ar quase distraído com que responde a uma entrevista, a mesma camisa com que sai pra caminhar todas as manhãs, o jeito de fumar ainda do tempo em que cigarro não fazia mal. Em compensação, tornou-se impossível ouvir o que ele escreve sem se tornar sentimental. Por isso há uma dose de inacreditável e ao mesmo tempo de saudável petulância em tocar e cantar Chico Buarque. Acrescente-se um pianista prodígio, três percussionistas e um pouco de sotaque pernambucano e o que era homenagem se transforma em obra-prima.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
591
Ela conseguiu chegar quase ao mesmo tempo em que os rapazes, mas não correu logo para dizer oi; não custava fazer algum charminho. Mas, quando o show começou, postou-se na primeira fileira e cantou junto todas as músicas. Depois que eles desceram no palco, ele finalmente a viu e foi abraçá-la, atencioso. Aquela era a sua oportunidade: pegou na mão dele e não soltou. Ele teve que apresentá-la aos amigos e até às pessoas que os outros tinham acabado de conhecer e cujas conversas ele estava tentando ouvir. Pensando melhor, não havia só vantagens em ter um clipe na MTV.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Apenas para fins ilícitos
Ao chegar, atrasado como sempre, sorria para a professora antes de tomar lugar. Quando interrogado, abria um sorriso antes de dar a resposta correta sem hesitar. Na porta da balada, não importava se o nome dele estava na lista ou quantas bebidas grátis era permitido tomar: as portas se abriam e nenhuma garçonete dizia não. Talvez ele nem soubesse como é que conseguia tudo aquilo: aprendera ainda em criança como um gesto de gentileza, e sorria de forma tão inocente e espontânea que parecia crer que apenas a sua consideração fazia as coisas tão fáceis e assim se tornava irresistível.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Em plena fuga
Estava tudo bem, tudo muito divertido e até engraçado, quando tudo começou a mudar, e rápido. Num momento havia gente andando em sentido contrário, no seguinte estavam todos correndo e foram para quadras abaixo, onde um rapaz se encolhia embaixo de um cassetete enquanto os amigos gritavam desesperados. Enquanto fugiam da polícia sem olhar para trás, não percebiam que viam nascer um novo conceito jurídico de apologia ao crime, que estranhamente se aplicava a trocadilhos quase infantis com a palavra pamonha, mas garantia a liberdade de expressão a quem achasse normal ou engraçado quando uma mulher fosse violentada na rua.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Não é preciso complicar
Ele saía do show, exausto e feliz como sempre, e depois de um monte de autógrafos ajudou os amigos a carregar as caixas de equipamento; parou na calçada e por um segundo fechou os olhos, curtindo a brisa fria da noite. No segundo seguinte ela estava ao seu lado com um brilho no olhar, saltou na ponta dos pés e beijou-o na boca; ao soltá-lo, ainda o encarou com um sorriso maroto antes de desaparecer correndo. Só houve reflexo para recolher a fivela de cabelo caída no chão e registrar a sombra de um vestido azul engolido por um táxi.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Nós e eles
É inexplicável como pessoas diferentes podem coexistir mas não conviver no mesmo espaço, ignorando a existência umas das outras ou descobrindo-as através da televisão. Como a cidade já parece uma Blade Runner de tantos helicópteros, não custa compará-la a um filme de desastre desses em que pobres e ricos se descobrem iguais e que dependem uns dos outros para sobreviver. Mas o vendedor de seguradora, a estudante de jornalismo e o sujeito de rosto tatuado seguem andando protegidos pela gravata, pelos fones de ouvido e pela máscara e não enxergam nem escutam nada nem se anões fantasiados dançassem na rua.
domingo, 16 de outubro de 2011
609
É estranho como a repetição é capaz de esvaziar o significado. A palavra caralho se transformou em simples exclamação, e as lâmpadas analógicas vermelhas não precisam iluminar. Bandanas eram adicionadas à cintura só quando o calor incomodava, agora elas já saem de casa assim, bem como os jeans rasgados de fábrica e aquela camiseta Ramones/ Green Day que já deu a impressão de ser customizada. A repetição, entretanto, gera igualmente conforto, o que permite a três das quatro bandas da noite cantarem em inglês com acordes sempre parecidos, e as letras de música da única banda em português resumirem-se à palavra caralho.
sábado, 15 de outubro de 2011
Bem-me-leve 1:40
Fora apenas coincidência: o caminho mais curto para pegar o ônibus para a faculdade passava pela rua dele, se eu fizesse o outro caminho teria que tomar outra linha com um trajeto mais longo. Estava calor e eu quis usar vestido, e daí que era o mesmo que eu estava usando no dia em que a gente se conheceu? No meio do caminho parei para conversar com uma amiga que não via fazia tempo e foi juntando gente. Ele passou bem na hora em que o meu amigo fez uma piada e eu estava rindo mesmo, mas foi pura coincidência.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Por que nós 2:20
Eles desceram do ônibus lotado, onde o seu abraço discreto contrastava com as caras amarradas dos outros passageiros de pé. Pela rua as roupas soltas e coloridas vinham na direção contrária dos ternos quadrados, cor de fumaça; ao virarem a esquina encontraram mais gente vestida de preto, acorrentada e séria como se fossem executivos de gravata. Todos subiam apressados e mal-humorados sem perceber a tarde que caía e sem sequer percebê-los e no seu autocentramento esbarravam no ombro ora de um, ora de outro. Caminhavam ainda sem pressa nenhuma e sem entender para onde todo mundo corria com tanta urgência.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
The great gig in the sky
Durante vinte e quatro horas, o mundo pareceu virado do avesso: as pessoas andavam calmamente por ruas de que todo mundo costumava ter medo e que estavam bem iluminadas e limpas, as bandas e os VJs tocavam com vistas ao céu limpo de nuvens, repleto de estrelas como se uma falha no tempo-espaço tivesse jogado de repente toda aquela gente ali: tiravam das mochilas sanduíches, garrafas d’água e pacotes de salgadinhos e ninguém usava maquiagem pesada nem roupa de noite, com exceção de alguns grupos de mantos e máscaras, entre os quais uma menina de vestido azul e sapatos vermelhos.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
501
A quadras de distância ouvia-se a música do coral se sobressaindo entre buzinas, carros com o som no último volume e conversas de bar nas mesinhas das calçadas. Depois de alguns minutos se enxergou uma forma branca que na escuridão da madrugada se materializou num imagem de Nossa Senhora, acompanhada por um rapaz tocando violão e dezenas de jovens comuns, que se confundiriam facilmente com os outros de tênis coloridos que formavam filas diante dos letreiros de néon vermelho e que pararam surpresos – quem teria dito que nada mais os surpreendia – sem entender se a procissão era irônica ou não.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Eclipse
A noite era bela como uma armadilha, com se a lua à vista e o taxista gentil fossem apenas um caminho mais curto até o tarado da machadinha. O vestido azul novo ainda incomodava na cintura, mas se esqueceria disso quando chegasse lá. “Lá” era apenas uma pergunta: até chegar, não havia como saber aonde estava indo. O que importava era o próprio movimento de subir e descer a rua, espiando o que acontecia ou estava para acontecer, e as aglomerações nas esquinas. Somente sabia que não era possível voltar para casa: aparentemente, não há um lado oculto da lua.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
934
Houvera uma atenção toda especial com o ambiente, que deveria parecer antigo, mas conter todas as referências familiares aos freqüentadores: objetos como que trazidos da casa da avó de alguém, mas laboriosamente caçados em brechós, alguns agressivos e outros até engraçados, cujo acúmulo na semiescuridão sobrecarregava a atenção e gerava um efeito mais sinistro de filme de terror; e nomes cheios de alusões que batizavam no cardápio pratos bem comuns. Todas as noites os clientes entravam distraídos e o resultado final da decoração eram cabeças baixas mergulhadas em luz violeta, entre o vermelho do néon e o azulado dos iPhones.
domingo, 9 de outubro de 2011
Felicidade 1:11
Ela parecia sozinha no palco quando a percebi começar a cantar: havia a banda, mas diante da letra, tão simples e direta, tudo desapareceu: os outros músicos, a platéia, Paranapiacaba. A voz surgia no refrão como o som de uma amiga há muito tempo esquecida e que reaparece do nada para te consolar. Talvez não haja maior sabedoria do que entender que não existe a obrigação de ser feliz e do que celebrar a chuva que se aproxima e ameaça estragar o nosso sábado à tarde. Como chorar de felicidade como resposta a alguém que te diz para não chorar?
Um conto chinês
A não ser que o espectador saiba cantonês, pois não há legendas, toda a história é contada sob a perspectiva do protagonista, com um sujeito falando o tempo todo coisas indecifráveis sem que a gente tenha muito mais elementos que o personagem de Ricardo Darín para deduzir o que ele diz. Se Kafka escrevesse uma comédia, ela seria exatamente desse jeito: duas horas de Amélie Poulain sob a perspectiva de um Colignon preso a velhos hábitos e à casa dos pais, que passa a maior parte do tempo se perguntando quem foi que pôs aquele elemento estranho em seu apartamento.
sábado, 8 de outubro de 2011
Vila do meio-dia 0:23
Costumava ser tão simples: o povo se encontrava na faculdade, na saída do trabalho, na rua, e os passos nos encaminhavam naturalmente até a esquina do bar e as garrafas chegavam e lotavam a musa minúscula sem que ninguém parecesse ter pedido nada. De repente, aquele cara que sempre estava ali virou alguém de quem a gente só ouve falar; as meninas desaparecem do grupo e são vistas com namorados ou noivos que ninguém conhece; e para se encontrar num simples domingo à tarde, no dia do jogo, tem que ser através do Facebook e ainda assim metade acaba furando...
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Qualquer cor que você queira
Basta caminhar seguindo o caminho de lajotas douradas, e tudo acontecerá. Ande pela avenida com o trânsito interditado, durante a tarde ensolarada de domingo, para que o mundo surja de repente caloroso e colorido e os policiais pareçam querer protegê-lo. Fantasie-se à vontade, sem receio de olhares desconfiados nem de lâmpadas fluorescentes, ao beijar pelo trajeto estranhos cobertos de tinta prateada ou até uma menina com um vestido azul de arrasar, sem ninguém ver. Continue caminhando pelo asfalto temporariamente amigável para que talvez, ao chegar ao fim, algum prestidigitador lhe atenda o desejo de amar sem ser punido por isso.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
O Morno 2:41
Muito se ouve: a música está nos supermercados e nos celulares, na novela e no intervalo da novela. Pouco se escuta.
Até que, um dia, algo te faz escutar: entre acordes de uma guitarra você ouve alguém dizer que não há problema quando as coisas não saem como você espera e que no final tudo acaba dando certo. É domingo de manhã, quando as paredes do apartamento te esmagam e toda a sua vida parece ter dado errado: o sábado já está distante, a segunda-feira próxima demais. Mas cada amanhecer pode ser uma nova chance de lutar por um sonho.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Bugalu 1:40
Você anda por ruas esburacadas e cinzentas onde homens cobertos de cinza caminham na direção contrária te obrigando a desviar de seus sacos valiosos de sucata e pesados iPhones valiosos, e desce as mesmas íngremes ladeiras sem graça entre muros ásperos rumo ao mesmo emprego onde todo mundo parece te odiar sem uma razão aparente. Você sorri para a caixa da Eletropaulo onde alguém escreveu uma frase legal ou para a casa abandonada com um fantasminha do Pac-Man na fachada e, mesmo com a promessa de viver muito bem depois de trabalhar trinta anos, é só isso que faz sentido.
Faaca 0:50
Era julho, mas foi como se Papai Noel tivesse encontrado uma cartinha empoeirada no fundo da gaveta e decidido mandar o presente assim mesmo. Era exatamente isso: uma história da carochinha, mesmo sendo tudo o que eu mais pedira. E, como num conto de fadas muito antigo, em que o urso pode esconder tanto um príncipe amaldiçoado pela bruxa quanto a própria, o conforto de um abraço se transforma de repente em uma facada no coração e você é oferenda de algum ritual bizarro ao ego do outro, que usa o sangue derramado de você para curar suas próprias feridas.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
3000
A fila é longa e, enquanto os rapazes e as meninas gordinhas se apertam junto ao segurança, a maioria das meninas se apressa ao ser colocada na frente da hostess, mal tendo tempo de retocar a maquiagem e puxando a minissaia que se enrola enquanto andam. O banheiro está lotado desde que a casa abriu e é impossível abstrair do lugar onde estão enquanto passam mal nos reservados ou disputam lugar junto aos espelhos para ver se o rímel não borrou. Pra que maquiagem quando o néon vermelho torna os tons indistinguíveis, e as meninas de vestido justo parecem nuas?
domingo, 2 de outubro de 2011
Rockkonzert III
Olhar para trás como numa sala de cinema e ver a imagem de milhares de rostos siderados, indistinguíveis entre homens e mulheres de camiseta preta e cabelos compridos na semiescuridão. A total incompreensão diante de uma abertura de Wagner seguida de War for territory e trechos da nona de Beethoven na guitarra acompanhada por uma orquestra completa e um violinista headbanger. Caminhar pelas ruas lotadas às duas da manhã, em procissão até o espetáculo seguinte. Mas, entre todas as vivências, ouvir um concerto no meio da madrugada em plena estação de trem central, com as estrelas de pano de fundo.
sábado, 1 de outubro de 2011
Patinho Feio
Enquanto o inverno durou, o patinho continuou em círculos intermináveis. Ele nadava em sentido horário, depois em anti-horário, e o calor do seu corpo aquecia a água em volta e mantinha o gelo afastado. Enquanto nadava daquela forma alucinada, não parava de pensar: por que eu nasci assim? Por que é errado ser feio, e certo ser bonito, ou então útil feito uma galinha? Não haveria nada de errado em ser feio ou inútil, em querer ficar deitado na água, sob as estrelas. Mas, se ele quisesse ver estrelas novamente, agora ocultas no céu encoberto, não poderia ceder ao cansaço.
Natal
Bruno puxou o elástico da barba do Papai Noel do shopping e quase matou os pais de vergonha. Bia perguntou para o anão se ele ganhava décimo-terceiro salário. Kléber não contou aos pais que pedira um He-man e foi assim que descobriu que Papai Noel não existia. A nossa infância fora curta, ao contrário da de nossos pais e avós, não por causa da guerra e da carestia, mas por causa da televisão: da Xuxa e do ministro Bresser Pereira, dos pobres da Serra Pelada e do Plano Cruzado – era impossível continuar ingênuo enquanto a inflação comia a sua mesada.
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