sábado, 31 de dezembro de 2011
Presentes invisíveis III
Quando as coisas pareciam difíceis, nada como se esconder em um canto do terraço, onde os amigos não a viam, e acender um cigarro. Era mais a sensação de fazer algo de que ninguém soubesse, e passar algumas horas com a cabeça recostada nas grades, enquanto as preocupações lentamente viravam fumaça: menos fumava do que observava o cigarro queimar. Talvez tivesse adormecido um pouco, por conta do cansaço, mas sentiu-se despertar de repente, e demorou um pouco para distinguir o que a acordara do burburinho da rua: um rapaz sentado na soleira da porta, alguns andares abaixo, tocava um violão.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Presentes Invisíveis II
Ele tinha confirmado presença no Face e mandado mensagem mais cedo, portanto ela chegou no horário, mesmo sabendo que atrasaria. Sentada em um canto, assistiu ao show olhando em volta às vezes, e demorou para perceber que ele não apareceria. A música e a empolgação do pessoal não a animavam, mas ela ficou até o fim. Viu o show acabar, as pessoas irem embora devagarinho e os caras da banda desmontarem os instrumentos, mas não sentia vontade de ir para casa. Enquanto pensava no que fazer, se assustou quando viu o baterista sorrir para ela, perguntando solícito se estava bem.
Presentes Invisíveis I
Ele chegava todo dia meio rabugento, e cumprimentava a todos secamente, ainda que com educação. A moça que trabalhava ao seu lado era uma dessas jovens tagarelas que voltavam do almoço rindo e fofocando. Aos poucos, conforme o ano avançava, ela ficava mais quieta e quase carrancuda, e as olheiras de cansaço se sobressaíam na maquiagem, e até ele soube quando o namorado terminou com ela. A última reunião do ano era seguida de um almoço, do qual ele nunca participava, e ao encontrar a jovem colega, sonolenta, ainda diante do computador, se aproximou dela e lhe deu um abraço.
Fantasma do Natal presente
Mandou um e-mail para o irmão com o texto mais vago possível, porque não sabia como se chamava a esposa dele nem quantos anos tinham os sobrinhos. Jantou qualquer coisa em casa antes de sair, porque a balada de Natal já se tornara uma tradição e era mais agradável do que ficar no apartamento vazio, porque os colegas de república tinham todos viajado para as cidades de origem, visitar a família, e só voltariam no Ano-Novo, que passariam na Paulista. Não queria telefonar para ninguém, nem era conveniente: os outros tinham pais e irmãos, filhos e maridos para cuidar.
domingo, 25 de dezembro de 2011
O fantasma do Natal presente
Ninguém passa mais horas na cozinha: tudo pode ser encomendado num bufê, ou comprado no mercado mesmo, basta ir com antecedência, por causa das filas. Em compensação não há filas para comprar presentes, encomendadas online também com antecedência. Depois que as crianças cresceram, não há mais razão de continuar convidando os primos pobres, que observariam com desconfiança as decorações trazidas das viagens ao exterior, de passeio e de intercâmbio. E é com fastio que se assiste ao especial da televisão que a vovó achava tão bonito, e que tolerávamos por amor a ela, enquanto se espera o jantar.
O Fantasma do Natal passado

Entre mais um plano econômico e as eleições em breve, cujo resultado seria o confisco das nossas poupanças e outro Natal ainda mais magro – ainda nos demos ao luxo de um chester e um tender, depois que o comercial da tevê nos explicava do que se tratavam, mais um sem-número de coisas que só comíamos nessa época porque não se vendiam no mercado – batata palha e mousse de chocolate, por exemplo –, de um Phantom System em que jogamos Ghostbusters as férias todinhas e de uma árvore com enfeites de papel e isopor, porque eles ainda não eram feitos na China.
Mensagens
Ela tinha convidado alguns colegas para o show, mas ninguém conhecia as bandas que iam tocar. Tentou marcar uma cerveja para depois, mas os horários não acertavam: era sempre o aniversário de alguém, a hora do plantão no trabalho, o dia da mudança. Do show para o barzinho ela caminhava sozinha entre grupos barulhentos de amigos, enquanto ela recebia os torpedos com as desculpas – não deu, não vai dar, outro dia a gente vê. E acabava se divertindo com recém-conhecidos que encontrava no balcão – as pessoas com quem convivia todos os dias, afinal, não faziam idéia de quem ela era.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Luzes
Às vezes é divertido andar pela própria cidade como quem passeia por um país estrangeiro: caminhar pelas ruas e tentar imaginar a história dos edifícios e o que pensam aquelas pessoas. E ter a idéia de que é comum, que todos os finais de semana é possível interditar a principal avenida da cidade para que os carros dêem lugar aos pipoqueiros e cachorros. Como um turista, andar sem objetivo, apenas para que os ladrilhos dos pavimentos te conheçam e os passantes com hora marcada se irritem: porque a rua só é propriedade de quem a trata com o devido respeito.
Ressaca
Você tem uma noite incrível, a melhor da sua vida: a banda fez um show maravilhoso, aquele gato te deu bola, seu cabelo estava perfeito. Você acorda no dia seguinte e, não sem surpresa, o mundo continua igual: a caixa da padaria te trata com a mesma atenção distraída, o chefe continua de cara amarrada, o ruído do escritório não mudou. Mas as imagens dispersas na lembrança atravessam a mente ao longo do dia, te sustentam e te fazem sorrir enquanto o trânsito não anda e os colegas resmungam na hora do café.
Timidez
Ela foi ao aniversário se sentindo meio intrusa por conta do convite pelo Facebook. Passou a noite em um canto, sem ousar se aproximar: havia sempre um círculo em torno dele, e mesmo quando não era o protagonista da festa magnetizava todas as atenções. Não era bonito, mas tinha uma luz irresistível e tratava todos com atenção e carinho. Finalmente, no fim da noite, ela aproveitou uma folga e entregou o seu presente, que ele agradeceu doce e atencioso, com um beijo e um abraço. Será que um amor, ainda que platônico, pode sobreviver com a lembrança de um abraço?
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Inception
Ele mal sabia que ela existia, no clichê mais cansativo. E ela adormecia todas as noites pensando nele com intensidade, para não pensar nos problemas do trabalho que a atolavam. Uma noite, ela estava no escritório, onde mesas de bufê cobertas de iguarias substituíam os computadores: nada a atraía, e ela decidia ir embora. No último degrau da escada, porém, um monstro pré-histórico a aguardava e, enquanto gritava em desespero para não ser devorada, acordou. Ele estava ao seu lado na cama, consolando-a do susto, perguntando o que acontecera. Ela respondeu que só fora um pesadelo e adormeceu de novo.
Inspiração
É impossível escrever direito quando se está apaixonada. Apaixonados falam muito, mas nada interessante: a paixão é como música sertaneja – todas são iguais, mas são cantadas como se fossem únicas. Se a paixão é platônica, então, é ainda pior: o diário se enche de páginas de um único tema e desenhos de coraçõezinhos; qualquer olhar ou aperto de mão é motivo de parágrafos inteiros. Apaixonados deveriam ser proibidos de escrever, mesmo porque não é direito com quem não tem essa felicidade. Apaixonados felizes deveriam ser trancafiados numa cela e calados antes que todos saibam o quanto a sensação é intoxicante.
Brigadeiro
Houve um tempo em que as horas eram marcadas pelo barulho das buzinas, que era alto às oito da manhã, aumentava novamente ao meio-dia e desaparecia durante a tarde, para crescer aos poucos e ficar insuportável só pelas sete da noite. Então, em algum momento da minha adolescência, os motoristas se esqueceram de buzinar, como se tivessem percebido que era inútil. Mas agora se lembraram, mas nesse ínterim a cidade se transformou num congestionamento permanente, e, para coroar o trânsito emperrado e o calor, nada como um coro desafinado de buzinar e o trautear do desfile de vendedores de semáforo.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Castelo Branco
Ainda há sol, mas o ruído e o movimento já são noturnos: diálogos de telenovela e as panelas do jantar. Por causa do calor, todas as portas e janelas estão abertas e os gritos e saleiros cruzam os corredores. Todo mundo circula de pijama e se intromete no apartamento de todo mundo: o que você está comendo, o que está assistindo, que site na internet é esse, não acredito que você ficou com ele de novo. Parados no tempo como numa imensa casa na árvore, cercada de índios e piratas, brincando de ser adultos enquanto os pais pagam as contas.
Barão de Mauá
Todos os dias, neste horário, os motoristas neste cruzamento buzinam para os outros se mexerem, como se eles mesmos não fizessem parte do congestionamento. Engraçado que, há vinte anos, sentada no banco traseiro do carro dirigido pela minha mãe – praticamente o lugar onde eu cresci – eu já estava às seis e meia da tarde neste exato semáforo e me perguntava o que tanta gente fazia ali ao mesmo tempo, e devem ser os mesmos, presos há duas décadas ao mesmo compromisso urgente. A vantagem é que hoje o som das buzinas me avisa que a hora do meu cochilo acabou.
Pareço moderno
Ele descia do apartamento no elevador que se movia lentamente e com um ruído estranho, como um filme de ficção científica dos anos 70, mas não sentia a fronteira entre o seu quarto e a rua: era o mesmo universo surreal, habitado por seres de óculos de aro colorido sem lente, que falavam usando termos desconexos como coxinha e Pasolini. Ela tinha escrito qualquer coisa no Facebook ou no Twitter e ele percorria a calçada, desesperado pela certeza de que ela estaria sentada numa daquelas mesinhas, bebendo Balalaika com limão enquanto discutia Kurt Weill, tão moderno quanto não ter orgulho.
Zazulejo 5:41
Quem separa, afinal, o que se diz certo do que se diz errado, e a troco de quê? A facilidade de zombar de quem não teve a mesma oportunidade, como se a língua – assim como o carro, o celular e a proteção da polícia – só pudesse ser usada por quem pagou por ela. Seria uma discussão quase científica, quando não servisse para desqualificar candidatos a cargos públicos contra os quais não se encontra outro argumento, ou preencher a pauta de um telejornal com problemas de assunto: a concordância nominal vigiada por quem desvia verbas públicas e sonega imposto de renda.
A Pedra mais alta 2:00
Andar apenas, até a dor nos pés desistir de protestar. E, na subida, descobrir cada um dos músculos que envolvem os pulmões. Chegando no alto, nada é importante. As pessoas na cidade quilômetros abaixo se tornaram invisíveis, os prédios irrelevantes. E todos os problemas do mundo, solúveis: o número do telefone do irmão há anos esquecido, a mala com as roupas do ex-namorado no hall, as horas mal pagas no trabalho. A paixão pela tristeza, os pensamentos dos dias solitários, os cortes nos antebraços, a falta de um abraço. É proibido pensar no trampo que vai ser voltar para casa.
Corte no pé 1:23
Era para ser inofensivo: um carinha bonito e simpático se sentara ao lado dela no bar, começou uma conversa interessante e uma coisa levou à outra. Mas, entre a saída da balada e a entrada do metrô, algum mecanismo foi acionado e começou o jogo: ele identificara os pontos fracos dela, e ela se apaixonou pela sua voz grave e mãos quentes. Ele a tratava com carinho e respeito e em seguida terminava com ela ou desaparecia. Ela encontrava outra pessoa, em outra balada, e ele aparecia puxando briga. Certos relacionamentos são indecifráveis, e há quem os confunda com amor.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Aluga-se-vende
Três discos, e uma única música triste. Na verdade, a tristeza, a angústia e o medo estão sempre ali, para nunca serem esquecidos mas também nunca dominarem o ambiente; para serem confrontados a propósito, e não cultivados como um bichinho de estimação. Você espera ansiosamente aquele único momento de tristeza, para revivê-la em catarse como já fez tantas vezes. E, para o seu espanto, o vocalista manda todo mundo abaixar (e todo mundo obedece). De repente todos pulam e o lugar se enche de balões coloridos, ninguém está triste... Tanto falam da roda de Copacabana, mas esse momento é inesquecível.
Insatisfeito
Quem não tem não tem como gastar, e quem gasta se desgasta pois não tem onde guardar. Nossa vida se tornou um amontoado de coisas, e as pessoas se definem por aquilo que elas vão comprar em seguida. E gastam para guardar aquilo com que gastaram: uma casa maior, com um cômodo só para a tevê gigante, o computador e a mesa do computador. E, de forma absurdamente inconsciente, não estão felizes e querem ainda mais. E, um dia, o que deixarão para trás será apenas um amontoado de coisas, que os herdeiros precisarão ordenar antes de jogar tudo fora.
Adeus
A gente baixa o disco, põe pra tocar e ele começa com um adeus. Mas não é uma vontade de ser do contra semiótico: como se aprende até a última faixa, saiba que todo fim é um recomeço. E, para começar alguma coisa, é preciso se despedir de muitas outras. Muita gente entende como uma simples declaração de amor, e também serve. Como o prefácio de um bom livro, porém, o que há é uma carta de intenções, sem ambições exacerbadas, apenas a vontade de fazer. E, sorrindo, sinto retornar o valor das coisas que têm começo, meio e fim.
Eu.nasci.com.fama
Pode ser que ninguém mais se lembre do ICQ, mas os mecanismos da celebridade continuam perversos, como num sinistro show de Truman. Quem escolhe, com quais critérios, quem fica famoso e quem permanece anônimo? Ou, como o Youtube nos ajuda a fazer de conta, trata-se de um evento aleatório? Fala-se muito da falta de identidade de quem vive sob os holofotes, como num anúncio permanente, casamentos e gravidezes apenas para a capa de Caras. E de quem clica, minuto a minuto, nos links que alimentam esses holofotes e empurra lá para baixo nas ocorrências o debate sobre o código florestal?
Cheia de manha
Entre tantas musas contemporâneas, de mulheres-fruta a rainhas de bateria, a quem ocorreria escrever uma música sobre aquela menininha irritante das tardes de domingo? Mais alguém teria percebido, portanto, que, com o baby-liss e os vestidinhos cor-de-rosa, não faria muita diferença se ela simplesmente desse cambalhotas pelo palco. Ela se esforça em cantar e dançar, esperando aprovação, como se alguém estivesse, de fato, prestando atenção, e mesmo o seu choro ocasional – crianças se assustam, se irritam e ficam tristes – provoca risos quase cruéis. Afinal, qual a diferença entre esta menina e aquelas, pensando friamente no que o futuro lhe reserva?
(A única cena que me ocorre, diante dessas crianças precoces, é aquela em que, em O Poderoso Chefão, Tom Hagen vê uma delas entrar no quarto de um produtor de cinema. Não está no filme.)
Menina-moça
Existe uma diferença fundamental entre ser bom e ser o melhor, que parece incompreensível. E o esforço para ser melhor do que os outros consome tempo e energia, que se esvaem sem perceber: ler a Veja inteira antes da segunda-feira, para saber em qual restaurante é preciso ir e qual o tablet comprar antes que todo mundo; e a necessidade de parecer eficiente o tempo todo, até mesmo na sua incompetência. Daqui a poucos anos, ninguém vai se lembrar de que você existiu ou de algo que você fez, mas a sua insignificância foi melhor do que a dos outros.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Cão guia

Eles tinham tocado a música dois dias antes, no Rio de Janeiro. Na verdade, tinham aberto o Rock in Rio com ela. Mas era muito mais importante que estavam tocando diante de mim e mais uma dúzia de pessoas na plateia, incluindo a minha maiga que os via ao vivo pela primeira vez. Depois que Gabriel, BC e Fábio passaram um tempão só aquecendo, subiram os sopros um por um, tocando faixas inteiras que com atenção se reconheciam. Às duas da tarde já chuviscava, mas valiam a pena a garoa e o frio por um show exclusivo de cinco minutos.
P.S.: Esse conto é excerto de uma resenha escrita para a seção "Repórter por um show" do blog dos cupins, que por razões desconhecidas nunca foi publicada.
Fluorescent Adolescent 1:11
Quando não é mais precoce escrever sobre a decepção? Tão frustrada consigo mesma antes que qualquer coisa pudesse ter acontecido de verdade, e seus sonhos não eram tão bobos quanto pareciam enquanto você os sonhava. Então escreve uma carta para si mesma no futuro, consolando-se da própria decepção e do próprio excesso de ambição: não foram pais nem seus amigos, não foi o mundo que criou toda aquela expectativa, foi só a sua vontade de que aquela energia da juventude fosse eterna. Geração esquisita essa, que já se considerou fracassada antes dos 30 anos (dos vinte, pra falar a verdade).
Pontilhado em negrito
No fundo, todo mundo acha que nasceu tarde demais e lamenta ter chegado a um mundo em que tudo já parece ter sido dito ou criado. O mundo nunca foi novo, mas o universo pode ser reinventado a todo momento, apenas a receita não está em lugar nenhum. Há coisas demais que estão ali apenas para serem redescobertas, ressuscitadas e postadas no Youtube, porque ninguém mais se lembrou de lembrar delas, e só por isso tanta coisa nova pode ser criada. E daí que não seja novo pros outros, contanto que seja pra mim? (De repente, repetir é uma invenção.)
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Sadô-masô
Em alguns momentos viver uma vida banal parece muito mais pesado do que deveria, e pequenas obrigações ocupam a sua mente durante toda a madrugada. O problema é a insônia e a enxaqueca se transformarem em fonte de jouissance, e você canta a sua inquietação em mau francês e ritmo de strip-tease. O que foi escrito nas horas perdidas ainda não faz sentido, mas todo mundo parece entender assim mesmo, como se estivessem lá enquanto você queria dormir e nem o violão podia pegar, por causa dos vizinhos. A frustração é difícil de aceitar, mas é simples conviver com ela.
Seria o rolex?
“Nunca pensamos que estavam construindo coisas, achamos que era só vontade de fazer barulho.” (Rowling 2001:48) Há sempre um momento em que a gente decide se quer construir algo ou apenas fazer barulho; em que se distingue um conceito da mera vontade de fazer piada. É perfeitamente possível se levar a sério sendo bem-humorado, e leve sem ser leviano. Mas quantos de fato entendem aquilo que a gente quer dizer? Não falo da receita exótica apresentada com jeito de cinema mudo – que não deixa de ser uma escolha de estilo significativa – mas dessa estranha resolução de ser um alegre deprê.
Bem natural 2:25
Há ambições mais inatingíveis do que outras. Alguns sonham com fama, sucesso e poder, essas coisas corriqueiras cujo desejo vem não sei de onde e cujo caminho é indecifrável. Ele observava os colegas que prestavam direito ou medicina, que compravam um carro ou um iPhone, que se engalfinhavam por uma vaga numa multinacional ou como assessor de um deputado, e não entendia o que os movia ou em direção a quê; e sonhava em descobrir o que era o seu desejo, sem a influência de nada que lhe fosse externo, nem dinheiro nem meninas, e assim conseguir apenas ser feliz.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Copacabana 0:09
E há momentos em que você sabe que não está diante de uma banda qualquer. O primeiro deles tem a ver com aquele “na casa da minha tia”, que desde então ponho pra tocar quando preciso de uma boa risada.
Ninguém me avisou, quando os fui ver pela primeira vez. E tampouco aviso quem arrasto comigo nas vezes seguintes: virou uma espécie de rito de passagem, e nem adiantaria explicar nada, porque com palavras não dá para entender. Todas as tentativas de descrição parecem tão desajeitadas diante do essencial: que nós somos parte da festa, e não meros espectadores.
E agora, Gregório?
Para que o sujeito reencarnaria um século mais tarde, desaparecendo em Praga para ressurgir em Brasília, apenas para sofrer o mesmo destino infeliz, de forma ainda mais degradante? – Saudoso o tempo em que a degradação do novo formato ainda era limitada ao espaço privado e não exposta no meio do shopping – Quem diria que abaixo de um inseto grotesco, na escala social da metamorfose, estaria um lanche de fast-food? E, a pergunta mais importante, quem comeu o sanduíche no final?
(Muito antes de escreverem Orgulho e Preconceito e zumbis, eles juntaram Kafka com canibalismo. Tenho certeza de que ele teria adorado.)
Sem palavras
No computador do escritório, onde ficava calada durante as horas mortas de serviço, ela buscava músicas novas para ouvir. Acostumada às declarações furiosas de músicos que se diziam roubados, fazia os downloads como uma pirraça. Até que, do link de um vídeo novo, ela chegou ao download do disco que, para seu susto, estava no site da própria banda. Naquela noite, no caminho para casa, a pasta nova no iPod dizia todas as coisas que ela jamais conseguira expressar, subitamente tão claras, e entre todas essa sensação de ser incapaz de dizer, de não ter voz nunca, de estar sempre sozinha...
Swing hum e meio
Uma letra extraordinariamente bem escrita, coesa e construída, que no entanto parece ter sido escrita em um único jato de inconformismo e raiva. Sem nenhum tipo de figura de linguagem, apenas dizendo o que vem à cabeça quando tudo parece que vai afundar, com exceção do paradoxo: fique calado para ser ouvido, abaixe a cabeça para te verem, e o mais evidente de todos – que eles fizeram exatamente o contrário do que fizeram de conta pregar, para se tornarem o que são. A única parte que eu confesso não entender é onde entra a piada com a castanha do Pará.
Lista de casamento
A vida é repleta de situações surreais, obrigações que nenhum sujeito esperava enfrentar. O amor se transmuta em pilhas de presentes e orçamentos de bufê, roupas jamais usadas em condições normais de temperatura e pressão e uma multidão de parentes desconhecidos. De tal maneira que ele deseja uma crise de amnésia temporária para não enfrentar a situação. E no final a angústia se transmuta em fotos alegres, sorridentes, que ninguém se lembra de ter tirado. (Nessas horas eu sempre me lembro de Slavoj Zizek: o único efeito prático de se apaixonar é ter que resolver problemas que não existiam antes.)
Ervilha/ Swing II a.k.a. Ié Ié Ié Jump
Talvez por causa do tempero de improviso jazzístico, que acabou se diluindo com o tempo; desse inconformismo que ainda é mais um sentimento mal contido do que uma idéia organizada em palavras; ou apenas por causa dessa energia caótica que qualquer faísca transforma em explosão criativa, mas o EP, de dez anos atrás, é uma delícia de se ouvir. Eles querem tocar sax e falar da injustiça social, surfar na internet e fazer solo de bateria, tudo ao mesmo tempo e sem te deixar tempo para respirar. É mesmo uma pena que algumas músicas não sejam mais tocadas ao vivo.
domingo, 27 de novembro de 2011
Dois Sorrisos

Existem datas, nem para todo mundo com felicidade. Mas cada história é única e tem valor, seja ela de amor ou de solidão. Como o tempo se encadeia e cada dia está ligado ao outro, talvez aquele dia dos Namorados não fosse realmente o motivo da celebração, mas uma data duas semanas antes – quando o Supremo Tribunal Federal reconheceu o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e sutilmente, como quem não quer nada, eles comemoram uma data na outra e marcam uma posição. Que só permaneçam conosco aqueles que acreditam que todos têm o direito de amar e ser felizes.
Descomplica
E há um momento, afinal, em que a gente cansa de pensar e precisa se mexer. Parar com essa história de ficar parada, sentada, escrevendo e simplesmente sair à rua, caminhando alheia ao congestionamento e ao coro das buzinas enquanto ri sozinha das coisas que acabou de compreender. Se guiar pelo sol, sem calcular os passos, chegar até o portão e andar entre carrinhos de bebê, atletas de fim de semana e crianças tomando sorvete e passar dez vezes na frente do palco agora vazio, mas tão cheio de lembranças. Afinal, tudo é tão simples, quando encarado com bom humor.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Receio do remorso
Há piadas que ninguém pode fazer se não quiser revelar quantos anos tem: comentários sobre a Cortina de Ferro, evocações do Plano Collor. Essas coisas que ficam na lembrança e só muitos anos mais tarde, em conversas de bar e fóruns do Orkut, a gente descobre que fazem parte da memória coletiva e nos afetam mais por mostrar a que geração pertencemos do que pelos efeitos na geopolítica.
Não adianta pensar no que não aconteceu ou no que poderia ter acontecido: o dinheiro da poupança que sumiu e a Perestroika são mais parte da nossa identidade do que da História.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Aconselho
Existem momentos preciosos, aos quais não se presta a devida atenção. Há quem prefira as lembranças grandiosas, as que se transformam em vídeos no Youtube - pedidos de casamento na roda de Copacabana, fogos de artifício, entradas na igreja. Mas há os pequenos instantes, e aquele primeiro raio de sol que encontra uma fresta na janela e ilumina o essencial: o restinho do sono compartilhado, o acordar ligeiramente mal-humorado que acaba num sorriso e o aconchego. Pode escurecer novamente, mas o sol sempre volta: ele não precisa ver nada, da distância em que se encontra - o amor não precisa de testemunhas.
Indiferença
Não deveria ser necessário esperar a conclusão de tudo para nos lembrar do que é fundamental. Quando a gente fica exausta, tantas vezes, por achar que precisa cuidar de tudo sozinha e no tempo e na ordem que o mundo nos impõe. Esse tempo e essa ordem de que o despertador nos recorda não existe. O que existe são os amigos e aqueles que nos carregam, nem que seja só até o palco de volta, nem que seja sem perceber, só para nos lembrar de que a vida é boa e há sempre alguma coisa nova para te fazer feliz.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Perca Peso 4:24
O mundo é cheio de imperativos. Mal chegamos à idade adulta e a vida se enche de obrigações chatas, pequenas tarefas sem sentido de que ninguém tinha nos avisado, serviços que nem desconfiávamos existir: o cabelereiro do cachorro, o afiador de facas, a lista de casamento. E consomem, dia a dia, a energia destinada antes ao que sonhávamos ser. A não ser quando decidimos pegar a lista de afazeres absurdos e tratá-la como o nonsense que ela é: bagunçar o sintagma, criar maiores nonsenses ainda e rir – rir do regime, da parentada, do Papai Noel e das contas pra pagar.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
The Strokes
Não deixa de ser uma estratégia inteligente, manter as expectativas baixas: basta Julian entrar no palco sóbrio e sorrindo que todo mundo já se dá por satisfeito. Depois ainda Fabrizio fala uma frasezinha em português, Nikolai se enrola numa bandeira, Albert brinda ao público; mas, antes de tudo, eles tocam bem, alternando as músicas dos quatro discos, durante uma hora sem tempo de respirar. Foram até doze horas de pé diante do palco, no estacionamento do parque, sem comer nem descansar direito, só porque você quer um dia contar aos seus netos que ouviu Last Night ser tocada ao vivo.
Garotas Suecas
Entre os brinquedos em que nós andamos, da mesma forma que eles, na mesma época em que eles, e já que tinham se tornado obsoletos e motivo de riso quando começou a bater a nostalgia, monta-se o palco. O sentimento atinge os lugares mais recônditos da nossa infância, até chegar ao que nós assistíamos entre bocejos nas tardes mortas de domingo: resta decidir se nós fingíamos gostar na época, se fingimos detestar depois ou se agora só aplaudimos para acompanhar os outros. A cultura pop forma-se por fenômenos inexplicáveis, e entre o cafona e o cult basta apenas um passo.
Falso retrato 1:21
Eles falam de alguém que parecia ser uma coisa, e era outra; que mentiu e transformou a tristeza num imperativo, não num estado ocasional do espírito. De repente o sol surge e revela, como num processo químico, o que já estava impresso, mas ainda invisível. Entre o caos de brigas e decepções, ressentimentos acumulados e súbitos acertos de conta, surge uma resolução que é antes uma disposição e que, encarada de frente, muda tudo. A questão não é se eles não passam pelos mesmos perrengues que todos nós, mas como eles conseguem fazer a felicidade parecer uma coisa tão simples.
sábado, 5 de novembro de 2011
Café com leite
Sempre tem um Coração Gelado. Alguém que, do seu castelo escondido, vê pessoas juntas e felizes e sente raiva. Elas nem se conhecem, só estão num mesmo wesite vendo um vídeo e sorrindo; ele então se dá ao trabalho de logar só para postar que a música é parecida com outra, que o nome da banda é tosco... Quando todo mundo resolve seguir o exemplo da própria banda e ignorar, ele ataca mais furiosamente, até alguém se irritar. Ele não ouviu nada de novo, nem de que ele goste: enfim, não ganhou nada além de uma migalha amarga de atenção.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Bolo
Alguém à direita do palco captou todo o som, mas oscilava tentando acompanhar o Xande que nunca para quieto. À esquerda alguém segurou a câmera com firmeza e os nove permanecem no enquadramento, lindos e alegres. E os vídeos vão para o Youtube sem que ninguém pense em cortar a parte em que o André errou, afinal é impossível não achar graça naquele riso sem graça. Então se converte em MP3 e é uma pena que eles não toquem no show seguinte, porque já decoramos a letra: gostosa, pra cima, com um nome que faz pensar nos títulos de Idem...
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Raul
O mistério não é saber quem foi o primeiro palhaço que gritou “Toca Raul”. É saber quem foi o segundo.
Então toda banda precisa encontrar uma solução. Alguns tocam Raul, infelizmente. Outros se atiram na orgia e gritam eles mesmos “Toca Raul” no meio da letra, para aplacar a gana da turma maluco beleza. Outros partem para a ofensa e fazem uma música explicando por que eles não tocam Raul, que de quebra fornece uma descrição completa daquele povo acampado no prédio da FFLCH.
E se, quando alguém gritasse o famigerado, a banda tocasse apenas uma música engraçada chamada Raul?
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Do mesmo ar
Queríamos falar da nossa angústia, de Kafka e do que sobrou da Perestroika; dos cruzados confiscados, da castanha e do que sobrou da mudança. Mas sempre tem alguém que quer ouvir falar de amor. Pior ainda, da falta de amor: da menina que não nos dá a menor bola e passa sem olhar. Essa menina nem precisa existir: não é difícil inventá-la. E então nós escrevemos a música, só para não dizerem que não somos melosos. Mas quem prestar atenção vai perceber que só cantamos sobre amores felizes: completamente imprestáveis para quem quiser ouvir sobre o seu próprio coração partido.
O Tempo
O princípio é quase pueril: eu quero te ver, mas o tempo não passa, e eu tenho que esperar. E o tempo se transforma no Tempo, esse monstro mal-humorado e cínico, que só quer ver o outro triste. Então eles desaceleram e aceleram, rodam em câmera lenta e em tempo real simultaneamente e fazem de conta que estão só de brincadeira: contrariam o próprio Tempo e o torcem a seu favor, ele vira um grafite na parede. Não é todos os dias que um conceito fenomenológico se esconde numa canção de amor. (Pueril é quem se deixa levar pelas aparências.)
P.S.: Em homenagem ao projeto Rotas Musicais, todos os textos deste blog durante o mês de novembro serão inspirados por músicas do Móveis Coloniais de Acaju. Se você ainda não ouviu falar do Móveis, acesse http://www.moveiscoloniaisdeacaju.com.br/, baixe o álbum C_mpl_te e preencha essa lacuna imperdoável na sua vida.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Fale, apenas respire
O melhor de uma festa é esperar por ela, como dizem nossas velhas tias. De vestido azul e botas de salto ela percorria a rua onde a atmosfera se enchia cada vez mais de expectativa: era sexta-feira. O vento anunciava que o tempo mudaria de manhã, e era com arrepios que ela descia a rua, olhando às vezes para trás numa segunda natureza de metropolitana nata. Os vendedores de cerveja nas calçadas, de cachorro-quente na traseira dos carros e o cheiro da maconha nas esquinas lembravam, estranhamente, que aquele asfalto já fora terra e aquele sítio considerado calmo e longíquo.
domingo, 30 de outubro de 2011
Mar de leite azedo 1:23
Há dias em que é mais fácil ser triste: domingos, principalmente. E domingos de chuva, em que o mundo se aquieta e se esvazia e desaparecem as desculpas para não se pensar na morte. Não se recomenda olhar no espelho, de onde espíritos malignos e fantasmas de garotinhas costumam sair para assombrar. Tampouco sair para fazer compras, porque a multidão, as luzes e o ruído só fazem o apartamento parecer ainda mais vazio, quando voltar. Só esta alçar a si mesma, com a delicadeza de quem pinça um pelo encravado, da atmosfera sufocante de viver consigo mesma o tempo todo.
Menina 2:51
Enquanto ela subia a rua, cujas esquinas já se enxergavam iluminadas por um pedaço de sol, exausta e começando a ficar de ressaca – era incrível a quantidade de sujeitos sem noção que se aproximavam segurando latas e abrindo os braços. Havia muito tempo, ela achava graça neles e sentia até pena do olhar carente de cada um. Mas agora, caminhando em direção ao apartamento meio vazio – na parede a marca da parede que fora tirada, os livros empilhados, uma camiseta ainda no chão e a mesa sem computador – só desejava a paz. E não se apaixonar, por ninguém, nunca mais.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Beleza Americana
Diante do seu próprio nome escrito em fogo há meninas que se assustam, outras que ficam lisonjeadas. Diante de uma câmera ligada, ainda que não visível, há meninas que abrem as cortinas e o sutiã e dançam na esperança de que o vídeo vá parar na internet. Outras se escondem. Mas, de costas para a câmera, traída pelo espelho, ser objeto de atenção a faz sorrir. E ele, do outro lado, capta com a digital o sorriso no canto da imagem, como se capta uma pomba morta na sombra de um avião que passa: o verdadeiro sorriso não se exibe.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Sequela
Ele vagueava pela rua, mas estava protegido pelo seu cobertor. Graças a ele podia explicar àquelas pessoas todas o que elas estavam fazendo de errado, mas apenas o encaravam sem entender. Já não se lembrava direito, mas houvera um tempo em que àquela hora a rua agora repleta de gente estava calma e vazia, com exceção das amigas que trabalhavam na calçada. Quando o viam recolher latinhas de cerveja jogadas no chão, atravessar a rua descalço ou acomodar-se sob um pórtico, tentando dormir na calçada lotada de notívagos barulhentos, era mais fácil acreditarem que sempre fora apenas mais um sem-teto.
Dinheiro
Ela desceu desesperada a rua do mesmo jeito que subira ofegante as escadas do metrô enquanto os sapatos novos doíam-lhe nos joanetes e rasgavam a pele dos calcanhares. Sem mal respirar ela chegou à recepção do prédio onde foi fotografada antes de entrar no elevador sem botão que já sabia o seu andar. Mas foi ao abrirem-se as portas do elevador que o ar fugiu-lhe dos pulmões: o pavimento dourado se estendia até onde não podia mais ver e o seu futuro chefe recebeu-a com ar enfastiado enquanto ela tentava a custo disfarçar o suor e o sangue nos pés.
Tempo
As horas se passavam de forma imperceptível às vezes: entre o final do dia fazendo as unhas e a escova, o entardecer comendo um sanduíche na lanchonete da esquina e enrolar na porta da balada até dar meia-noite – porque ninguém quer entrar primeiro e dar pinta de que está louco para se divertir. Entre o primeiro show e o segundo, a apresentação de um DJ novo e mais uma bebida enquanto um carinha passa a mão no seu cabelo e insiste em te paquerar, um dia você percebe que dez anos se passaram e ninguém te disse quando ir embora.
606
Eles chegaram e ocuparam uma mesa vazia, quase ordeiramente: dois rapazes e uma moça, todos de All Star e camisa xadrez. Ela em seguida se levantou e pediu uma cobertura vegetariana, enquanto seus companheiros conversavam calmamente. Aos poucos chegavam os outros amigos, de pescoço comprido para ser se a balada na frente já não estava aberta, que sem pudor puxavam mais mesas, quase bloqueando a entrada. Ao bater meia-noite levantaram-se todos com um estrondo, puxando as cadeiras e em um instante todas as mesas e cadeiras estavam na posição original enquanto as duas únicas meninas do grupo retocavam o batom.
Gente Grande 0:39
Por que ela queria tanto que eu fosse adulta? Uma vez, no meio da festa, me puxando pelo braço do meio da roda com as outras crianças. Um pequeno discurso, na maior parte incompreensível, sobre pessoas crescidas que não precisam de amigos. Os brinquedos escondidos no sótão e a Barsa no lugar deles. As histórias contadas para as visitas, inventadas, sobre a minha precocidade. A roupa cheia de rendas para eu não me sujar, o cabelo armado com grampos para eu não me mexer. E assim, limpinha e quietinha, séria e sozinha, no canto do salão, fiquei igualzinha a você.
Meu Precioso 3:10
Quando ele não estava bêbado, estava de ressaca ou reclamando de que estivera bêbado ou de ressaca e que não se lembrava de nada. Sua mente parecia um borrão de tinta, no qual a lembrança dela emergia ocasionalmente através de uma mensagem de texto, a que ela respondia apenas para se irritar depois quando ele não escrevia de volta ou com suas respostas incoerentes, muitas vezes pornográficas; ao sentir sua voz irritada, pedia desculpas sem saber o porquê e então desaparecia de novo. Até que, cansada, ela desapareceu – e com freqüência ainda bêbado ele contemplava o número dela no celular.
No tempo da maldade a gente nem tinha nascido
Há algo de irresistivelmente chique em tudo o que toca Chico Buarque: o ar quase distraído com que responde a uma entrevista, a mesma camisa com que sai pra caminhar todas as manhãs, o jeito de fumar ainda do tempo em que cigarro não fazia mal. Em compensação, tornou-se impossível ouvir o que ele escreve sem se tornar sentimental. Por isso há uma dose de inacreditável e ao mesmo tempo de saudável petulância em tocar e cantar Chico Buarque. Acrescente-se um pianista prodígio, três percussionistas e um pouco de sotaque pernambucano e o que era homenagem se transforma em obra-prima.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
591
Ela conseguiu chegar quase ao mesmo tempo em que os rapazes, mas não correu logo para dizer oi; não custava fazer algum charminho. Mas, quando o show começou, postou-se na primeira fileira e cantou junto todas as músicas. Depois que eles desceram no palco, ele finalmente a viu e foi abraçá-la, atencioso. Aquela era a sua oportunidade: pegou na mão dele e não soltou. Ele teve que apresentá-la aos amigos e até às pessoas que os outros tinham acabado de conhecer e cujas conversas ele estava tentando ouvir. Pensando melhor, não havia só vantagens em ter um clipe na MTV.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Apenas para fins ilícitos
Ao chegar, atrasado como sempre, sorria para a professora antes de tomar lugar. Quando interrogado, abria um sorriso antes de dar a resposta correta sem hesitar. Na porta da balada, não importava se o nome dele estava na lista ou quantas bebidas grátis era permitido tomar: as portas se abriam e nenhuma garçonete dizia não. Talvez ele nem soubesse como é que conseguia tudo aquilo: aprendera ainda em criança como um gesto de gentileza, e sorria de forma tão inocente e espontânea que parecia crer que apenas a sua consideração fazia as coisas tão fáceis e assim se tornava irresistível.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Em plena fuga
Estava tudo bem, tudo muito divertido e até engraçado, quando tudo começou a mudar, e rápido. Num momento havia gente andando em sentido contrário, no seguinte estavam todos correndo e foram para quadras abaixo, onde um rapaz se encolhia embaixo de um cassetete enquanto os amigos gritavam desesperados. Enquanto fugiam da polícia sem olhar para trás, não percebiam que viam nascer um novo conceito jurídico de apologia ao crime, que estranhamente se aplicava a trocadilhos quase infantis com a palavra pamonha, mas garantia a liberdade de expressão a quem achasse normal ou engraçado quando uma mulher fosse violentada na rua.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Não é preciso complicar
Ele saía do show, exausto e feliz como sempre, e depois de um monte de autógrafos ajudou os amigos a carregar as caixas de equipamento; parou na calçada e por um segundo fechou os olhos, curtindo a brisa fria da noite. No segundo seguinte ela estava ao seu lado com um brilho no olhar, saltou na ponta dos pés e beijou-o na boca; ao soltá-lo, ainda o encarou com um sorriso maroto antes de desaparecer correndo. Só houve reflexo para recolher a fivela de cabelo caída no chão e registrar a sombra de um vestido azul engolido por um táxi.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Nós e eles
É inexplicável como pessoas diferentes podem coexistir mas não conviver no mesmo espaço, ignorando a existência umas das outras ou descobrindo-as através da televisão. Como a cidade já parece uma Blade Runner de tantos helicópteros, não custa compará-la a um filme de desastre desses em que pobres e ricos se descobrem iguais e que dependem uns dos outros para sobreviver. Mas o vendedor de seguradora, a estudante de jornalismo e o sujeito de rosto tatuado seguem andando protegidos pela gravata, pelos fones de ouvido e pela máscara e não enxergam nem escutam nada nem se anões fantasiados dançassem na rua.
domingo, 16 de outubro de 2011
609
É estranho como a repetição é capaz de esvaziar o significado. A palavra caralho se transformou em simples exclamação, e as lâmpadas analógicas vermelhas não precisam iluminar. Bandanas eram adicionadas à cintura só quando o calor incomodava, agora elas já saem de casa assim, bem como os jeans rasgados de fábrica e aquela camiseta Ramones/ Green Day que já deu a impressão de ser customizada. A repetição, entretanto, gera igualmente conforto, o que permite a três das quatro bandas da noite cantarem em inglês com acordes sempre parecidos, e as letras de música da única banda em português resumirem-se à palavra caralho.
sábado, 15 de outubro de 2011
Bem-me-leve 1:40
Fora apenas coincidência: o caminho mais curto para pegar o ônibus para a faculdade passava pela rua dele, se eu fizesse o outro caminho teria que tomar outra linha com um trajeto mais longo. Estava calor e eu quis usar vestido, e daí que era o mesmo que eu estava usando no dia em que a gente se conheceu? No meio do caminho parei para conversar com uma amiga que não via fazia tempo e foi juntando gente. Ele passou bem na hora em que o meu amigo fez uma piada e eu estava rindo mesmo, mas foi pura coincidência.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Por que nós 2:20
Eles desceram do ônibus lotado, onde o seu abraço discreto contrastava com as caras amarradas dos outros passageiros de pé. Pela rua as roupas soltas e coloridas vinham na direção contrária dos ternos quadrados, cor de fumaça; ao virarem a esquina encontraram mais gente vestida de preto, acorrentada e séria como se fossem executivos de gravata. Todos subiam apressados e mal-humorados sem perceber a tarde que caía e sem sequer percebê-los e no seu autocentramento esbarravam no ombro ora de um, ora de outro. Caminhavam ainda sem pressa nenhuma e sem entender para onde todo mundo corria com tanta urgência.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
The great gig in the sky
Durante vinte e quatro horas, o mundo pareceu virado do avesso: as pessoas andavam calmamente por ruas de que todo mundo costumava ter medo e que estavam bem iluminadas e limpas, as bandas e os VJs tocavam com vistas ao céu limpo de nuvens, repleto de estrelas como se uma falha no tempo-espaço tivesse jogado de repente toda aquela gente ali: tiravam das mochilas sanduíches, garrafas d’água e pacotes de salgadinhos e ninguém usava maquiagem pesada nem roupa de noite, com exceção de alguns grupos de mantos e máscaras, entre os quais uma menina de vestido azul e sapatos vermelhos.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
501
A quadras de distância ouvia-se a música do coral se sobressaindo entre buzinas, carros com o som no último volume e conversas de bar nas mesinhas das calçadas. Depois de alguns minutos se enxergou uma forma branca que na escuridão da madrugada se materializou num imagem de Nossa Senhora, acompanhada por um rapaz tocando violão e dezenas de jovens comuns, que se confundiriam facilmente com os outros de tênis coloridos que formavam filas diante dos letreiros de néon vermelho e que pararam surpresos – quem teria dito que nada mais os surpreendia – sem entender se a procissão era irônica ou não.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Eclipse
A noite era bela como uma armadilha, com se a lua à vista e o taxista gentil fossem apenas um caminho mais curto até o tarado da machadinha. O vestido azul novo ainda incomodava na cintura, mas se esqueceria disso quando chegasse lá. “Lá” era apenas uma pergunta: até chegar, não havia como saber aonde estava indo. O que importava era o próprio movimento de subir e descer a rua, espiando o que acontecia ou estava para acontecer, e as aglomerações nas esquinas. Somente sabia que não era possível voltar para casa: aparentemente, não há um lado oculto da lua.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
934
Houvera uma atenção toda especial com o ambiente, que deveria parecer antigo, mas conter todas as referências familiares aos freqüentadores: objetos como que trazidos da casa da avó de alguém, mas laboriosamente caçados em brechós, alguns agressivos e outros até engraçados, cujo acúmulo na semiescuridão sobrecarregava a atenção e gerava um efeito mais sinistro de filme de terror; e nomes cheios de alusões que batizavam no cardápio pratos bem comuns. Todas as noites os clientes entravam distraídos e o resultado final da decoração eram cabeças baixas mergulhadas em luz violeta, entre o vermelho do néon e o azulado dos iPhones.
domingo, 9 de outubro de 2011
Felicidade 1:11
Ela parecia sozinha no palco quando a percebi começar a cantar: havia a banda, mas diante da letra, tão simples e direta, tudo desapareceu: os outros músicos, a platéia, Paranapiacaba. A voz surgia no refrão como o som de uma amiga há muito tempo esquecida e que reaparece do nada para te consolar. Talvez não haja maior sabedoria do que entender que não existe a obrigação de ser feliz e do que celebrar a chuva que se aproxima e ameaça estragar o nosso sábado à tarde. Como chorar de felicidade como resposta a alguém que te diz para não chorar?
Um conto chinês
A não ser que o espectador saiba cantonês, pois não há legendas, toda a história é contada sob a perspectiva do protagonista, com um sujeito falando o tempo todo coisas indecifráveis sem que a gente tenha muito mais elementos que o personagem de Ricardo Darín para deduzir o que ele diz. Se Kafka escrevesse uma comédia, ela seria exatamente desse jeito: duas horas de Amélie Poulain sob a perspectiva de um Colignon preso a velhos hábitos e à casa dos pais, que passa a maior parte do tempo se perguntando quem foi que pôs aquele elemento estranho em seu apartamento.
sábado, 8 de outubro de 2011
Vila do meio-dia 0:23
Costumava ser tão simples: o povo se encontrava na faculdade, na saída do trabalho, na rua, e os passos nos encaminhavam naturalmente até a esquina do bar e as garrafas chegavam e lotavam a musa minúscula sem que ninguém parecesse ter pedido nada. De repente, aquele cara que sempre estava ali virou alguém de quem a gente só ouve falar; as meninas desaparecem do grupo e são vistas com namorados ou noivos que ninguém conhece; e para se encontrar num simples domingo à tarde, no dia do jogo, tem que ser através do Facebook e ainda assim metade acaba furando...
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Qualquer cor que você queira
Basta caminhar seguindo o caminho de lajotas douradas, e tudo acontecerá. Ande pela avenida com o trânsito interditado, durante a tarde ensolarada de domingo, para que o mundo surja de repente caloroso e colorido e os policiais pareçam querer protegê-lo. Fantasie-se à vontade, sem receio de olhares desconfiados nem de lâmpadas fluorescentes, ao beijar pelo trajeto estranhos cobertos de tinta prateada ou até uma menina com um vestido azul de arrasar, sem ninguém ver. Continue caminhando pelo asfalto temporariamente amigável para que talvez, ao chegar ao fim, algum prestidigitador lhe atenda o desejo de amar sem ser punido por isso.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
O Morno 2:41
Muito se ouve: a música está nos supermercados e nos celulares, na novela e no intervalo da novela. Pouco se escuta.
Até que, um dia, algo te faz escutar: entre acordes de uma guitarra você ouve alguém dizer que não há problema quando as coisas não saem como você espera e que no final tudo acaba dando certo. É domingo de manhã, quando as paredes do apartamento te esmagam e toda a sua vida parece ter dado errado: o sábado já está distante, a segunda-feira próxima demais. Mas cada amanhecer pode ser uma nova chance de lutar por um sonho.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Bugalu 1:40
Você anda por ruas esburacadas e cinzentas onde homens cobertos de cinza caminham na direção contrária te obrigando a desviar de seus sacos valiosos de sucata e pesados iPhones valiosos, e desce as mesmas íngremes ladeiras sem graça entre muros ásperos rumo ao mesmo emprego onde todo mundo parece te odiar sem uma razão aparente. Você sorri para a caixa da Eletropaulo onde alguém escreveu uma frase legal ou para a casa abandonada com um fantasminha do Pac-Man na fachada e, mesmo com a promessa de viver muito bem depois de trabalhar trinta anos, é só isso que faz sentido.
Faaca 0:50
Era julho, mas foi como se Papai Noel tivesse encontrado uma cartinha empoeirada no fundo da gaveta e decidido mandar o presente assim mesmo. Era exatamente isso: uma história da carochinha, mesmo sendo tudo o que eu mais pedira. E, como num conto de fadas muito antigo, em que o urso pode esconder tanto um príncipe amaldiçoado pela bruxa quanto a própria, o conforto de um abraço se transforma de repente em uma facada no coração e você é oferenda de algum ritual bizarro ao ego do outro, que usa o sangue derramado de você para curar suas próprias feridas.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
3000
A fila é longa e, enquanto os rapazes e as meninas gordinhas se apertam junto ao segurança, a maioria das meninas se apressa ao ser colocada na frente da hostess, mal tendo tempo de retocar a maquiagem e puxando a minissaia que se enrola enquanto andam. O banheiro está lotado desde que a casa abriu e é impossível abstrair do lugar onde estão enquanto passam mal nos reservados ou disputam lugar junto aos espelhos para ver se o rímel não borrou. Pra que maquiagem quando o néon vermelho torna os tons indistinguíveis, e as meninas de vestido justo parecem nuas?
domingo, 2 de outubro de 2011
Rockkonzert III
Olhar para trás como numa sala de cinema e ver a imagem de milhares de rostos siderados, indistinguíveis entre homens e mulheres de camiseta preta e cabelos compridos na semiescuridão. A total incompreensão diante de uma abertura de Wagner seguida de War for territory e trechos da nona de Beethoven na guitarra acompanhada por uma orquestra completa e um violinista headbanger. Caminhar pelas ruas lotadas às duas da manhã, em procissão até o espetáculo seguinte. Mas, entre todas as vivências, ouvir um concerto no meio da madrugada em plena estação de trem central, com as estrelas de pano de fundo.
sábado, 1 de outubro de 2011
Patinho Feio
Enquanto o inverno durou, o patinho continuou em círculos intermináveis. Ele nadava em sentido horário, depois em anti-horário, e o calor do seu corpo aquecia a água em volta e mantinha o gelo afastado. Enquanto nadava daquela forma alucinada, não parava de pensar: por que eu nasci assim? Por que é errado ser feio, e certo ser bonito, ou então útil feito uma galinha? Não haveria nada de errado em ser feio ou inútil, em querer ficar deitado na água, sob as estrelas. Mas, se ele quisesse ver estrelas novamente, agora ocultas no céu encoberto, não poderia ceder ao cansaço.
Natal
Bruno puxou o elástico da barba do Papai Noel do shopping e quase matou os pais de vergonha. Bia perguntou para o anão se ele ganhava décimo-terceiro salário. Kléber não contou aos pais que pedira um He-man e foi assim que descobriu que Papai Noel não existia. A nossa infância fora curta, ao contrário da de nossos pais e avós, não por causa da guerra e da carestia, mas por causa da televisão: da Xuxa e do ministro Bresser Pereira, dos pobres da Serra Pelada e do Plano Cruzado – era impossível continuar ingênuo enquanto a inflação comia a sua mesada.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Jantar em família
Depois de alguns encontros, ele disse que faria aniversário naquela semana e que haveria uma festa, em que queria que ela conhecesse “todo mundo”. Diante do convite indecifrável, saltaram as dúvidas: como presentear alguém que conhecia havia menos de um mês, e quem ela ia conhecer? Ele se referia à “família” o tempo todo, que ela achava tão cedo para ser apresentada. A dúvida a seguiu enquanto ela colocava a lembrancinha simples na bolsa e se vestia sem a mínima idéia de para onde iria. Quando chegou, quem os esperava no bar lotado era a imensa família de amigos barulhentos.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Menina dos Fósforos
O inverno era eterno: paisagens de gelo que se estendiam até onde se pode ver, camadas grossíssimas e densas de neve que cobriam as ruas, icebergs que se acumulavam nas esquinas e nas quais as luzes dos carros batiam e se refletiam de modo tétrico, espectral. Para os poucos transeuntes que apareciam, um fósforo era quase nada diante da lareira que os esperava quando chegassem logo em casa. Para ela, seus fósforos, além dos pés descalços e do cabelo despenteado, eram a única coisa que possuía, portanto o seu maior tesouro e para o seu pequeno corpo, quentes o bastante.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Cachecóis
Diante da névoa fria que cobria a paisagem, a pergunta: qual deles usar? Diante do guarda-roupa, escolhia entre o listrado, o azul florido, o verde de lã. Diante da onda de cinza que invadia a paisagem do escritório – o preto dos terninhos e botas com o branco das blusinhas e colares de pérola com um nó –, ela usava uma cor diferente todo dia e combinava com a bota, ou com o casaco, ou com os brincos. Era até uma pena quando o frio desaparecia e ela tinha que guardá-los, um a um dobrados na gaveta, para o próximo ano.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Morangos
De repente, as bancas amarelo-esverdeadas da feira se cobriram de cores fortes e vivas: morangos, figos, maçãs reluzentes, uvas rosadas, berinjelas, tomates de vários formatos, caquis, alcachofras. O colorido cítrico do verão era substituído por esse outro, mais quente e aconchegante, que era levado para casa para ser coberto por caldas, assado com queijos e chocolate, temperados por chás e comidos sob o edredom, vendo tevê na cama. Mas o calor daquele cardápio provinha antes dos vermelhos e roxos que enchiam despensas e geladeiras, aquecendo o olhar e tornando irrespondível a pergunta, por que tanta gente não gosta do inverno?
domingo, 25 de setembro de 2011
Dia das crianças
Depois de acionado pela terceira vez, o alçapão do castelo medieval não subia mais. O carro da Barbie só tinha a vantagem de ser cor-de-rosa, mas não andava, e o comandos em ação novo em folha já tinha o dedo quebrado. Mas, como ainda faltavam dois meses para o Natal, era preciso dar um jeito: Andrezinho desenhou folhas num pedaço de papel e cobriu com ele o buraco do alçapão, Michele guardava os batons no porta-malas da Barbie e Eduardo prendia a espingarda o G. I. Joe com um elástico. Houve um tempo em que precisávamos esperar pelo próximo presente.
sábado, 24 de setembro de 2011
Escadas
Eu sonhei que subia as escadas do prédio aqui, e que não chegava nunca ao consultório. Era uma escada longa e sinistra, estava escuro, e meus pés estavam cansados, mas eu tinha que chegar aqui de qualquer jeito. Havia alguma coisa muito importante que eu tinha que te contar. E a escada não acabava nunca. Conforme eu ia subindo, percebi desesperado que tinha esquecido o que precisava contar, e tentava me lembrar enquanto a escadaria ficava mais íngreme. O sonho não termina, mas também não tinha começado. Então, nem sei por que estou contando tudo isso para uma poltrona vazia.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Maria Antonieta
É pouco provável separar uma pessoa do que se crê dela. É ainda menos provável que alguém educado num sistema e que o represente possa, de alguma forma, estar consciente de que ele eventualmente ruirá. Diamantes em troca de liberdade formam, na verdade, um conceito muito romântico a respeito do poder dos diamantes, bem como mantém uma idéia ingênua a respeito de mulheres no poder, como se a proximidade dos ministros e a pompa dos castelos garantissem alguma forma de influência: amantes são despachadas no raiar da madrugada, princesas freqüentam bailes mascarados e rainhas são executadas com bebês no colo.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Cianeto
Na verdade, eu não acho que preciso de terapia. Não tem nada de errado comigo, nem com a minha vida. Meu marido tem um bom emprego, ele fica no escritório até tarde, às vezes no final de semana. Nossa casa é própria e o meu carro é novo. Eu sou professora da rede, mas não preciso ir trabalhar. As crianças vão bem na escola. Nossa empregada é quem faz o almoço e depois as leva para a escola, mas naquele dia eu tive vontade de fazer uma coisa diferente e cozinhar, mas acho que elas não gostaram da minha comida.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Experimento para um conto romântico III
Quando chegou à loja, Lotário sentiu-se quase aliviado em achá-la fechada. Mas, lembrando-se do amigo, decidiu tocar a campainha – e se abriu uma porta de uma escada lateral que levou Lotário ao que parecia ser o apartamento da estranha comerciante.
Ela estava deitada na cama no meio do cômodo, onde se espalhavam réplicas da cadeira vermelha. Levado por uma atração irresistível, ele fez amor com a horrenda figura, que no final apontou uma das cadeiras, que ele entendeu que podia levar consigo. A caminho da porta, ele olhou para trás – e a velha de costas, nua, exibia um imenso pênis.
Experimento para um conto romântico II
Enquanto os dois compravam os móveis e eletrodomésticos necessários ao futuro apartamento, acabaram percorrendo várias vezes uma longa rua repleta de lojas de móveis antigos, que faziam o seu gosto. Entre elas, acharam uma loja cuja dona era uma velhinha de roupas ciganas, fumando um cachimbo numa cadeira de balanço.
Ali encontraram uma cadeira forrada de veludo vermelho que não teria utilidade nenhuma na casa de dois solteirões – mas que Natanael decidiu comprar de qualquer maneira. Afetado pelo sorriso sinistro da velha, Lotário convenceu o amigo a não a levar naquele dia – e prometeu buscá-la ele mesmo na semana seguinte.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Experimento para um conto romântico, parte I
Lotário e Natanael eram dois amigos que decidiram tirar proveito de suas respectivas heranças e tranqüilos empregos nas empresas de seus pais para aprofundar a sua amizade, alugando um apartamento em comum nas proximidades dos bares e das casas noturnas que costumavam freqüentar todas as noites.
Enquanto Natanael tinha um temperamento meio distraído, aceitando todas as situações sem discussão, Lotário era mais desconfiado e curioso e sempre queria saber a causa de todas as coisas, o que já o levara a proteger o amigo de muitas situações perigosas. Mas ambos eram igualmente otimistas e queridos pelo seu grupo de amigos.
domingo, 18 de setembro de 2011
Inexplicável
Todas as vezes em que eles se despediam – geralmente, quando ela embarcava no ônibus de volta para casa, ele parado de pé no ponto – havia a estranha sensação de que não se veriam mais. A rigor, eles não eram nada um do outro; não existia nenhuma forma de compromisso, de obrigação; e, quando eles passavam o final de semana juntos, havia uma sensação de cansaço, de que eles não tinham mais o que falar. Apesar disso, uma dos dois sempre acabava ligando depois de alguns dias, e marcavam de se encontrar, terminando a noite abraçados na cama de um deles.
sábado, 17 de setembro de 2011
As virgens suicidas
A pequena rua de subúrbio é uma imagem congelada de gramados recém-cortados e carros limpos nas garagens, como numa pintura barroca. Tudo está prestes a fenecer: em breve a fuligem tóxica cobrirá as casas, em muito breve os carros funerários formarão uma fila diante da casa em que vivem as cinco irmãs. Da janela do outro lado da rua nós observávamos, sem compreendê-lo, a lenta aproximação do fim da nossa inocência, enquanto algo muito mais tóxico do que a poluição da usina próxima ou que o gás de cozinha que matara Bonnie começava a cobrir toda a vizinhança: o silêncio.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Experimento para uma ficção científica III
Apenas no corredor homens de preto passavam carregando carrinhos de mão com bolsas pretas contendo o que se via serem imensas barras de ouro. Normalmente eles não o fariam de maneira tão ostensiva, mas ninguém parecia se importar. Ela os seguiu, curiosa, e descobriu que eles esvaziavam um cofre arrombado obviamente pela hecatombe e carregavam tudo no trem parado na linha atrás do prédio. Sem a presença da polícia, roubavam com paciência e sem remorso. A certa hora, todos se levantaram como se fossem para casa, vestiram os casacos e embarcaram no trem, enquanto o prédio começava a se desfazer.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Experimento para uma ficção científica II
Um dia tomou, como programado antes da tragédia, um outro ônibus que a levava para o serviço ocasional em uma empresa distante. Estranhou na portaria o movimento habitual dos carros e do trem: sempre havia sobreviventes hostis, mas eles dificilmente agiam às claras. No interior do prédio, a mesma circulação de engravatados e mulheres de terninho e salto alto não denunciaria nada, se pela janela não se avistasse parte da cidade arrasada, com a ponte principal partida em duas. Chegou ao escritório onde trabalhava o seu cliente, e ele parecia ocupadíssimo como sempre, e como sempre pediu para ela esperar.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Experimento para uma ficção científica, parte I
A hecatombe esvaziara as ruas e derrubara os prédios, mas, por alguma estranha razão relacionada à pré-programação dos sistemas de transporte público, iluminação e energia, os ônibus continuavam circulando normalmente. Os poucos sobreviventes então aproveitavam a cidade tranqüila e repetiam os seus caminhos de casa para o trabalho e vice-versa, mesmo não tendo nada o que fazer e, embora vivessem no sistema cada-um-por-si, sentavam-se cordialmente ao lado uns dos outros.
Os ônibus semivazios eram mais propícios ao flerte, e ela se sentiu mais segura no dia em que ele passou o braço pelos seus ombros, afastando uma horda potencialmente hostil.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Rockkonzert II
Enquanto ele pagava o ingresso em duas vezes no cartão de crédito, e gastava quase a mesma quantia em um táxi depois, ela chegava à casa de metrô e, por ter posto o nome na lista, não pagava entrada. Ele vira o vocalista a dezenas de metros de distância, e do concerto ficara a lembrança de canhões de luzes coloridas. Ela sentou no fundo do salão, com uma boa visão do palco com a balada semivazia. Enquanto ela trocava endereços no Twitter com os membros da banda, ele tinha a certeza de que Bono Vox pouco se importava com ele.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Microondas
Quando se muda para um apartamento, há uma preocupação constante com a comida: como e o quanto comprar, se comida fresca ou só pronta, não comprar só besteira. E é curioso como, aos poucos, alguns objetos que sequer se tinha consciência de que existiam começam a ganhar forma e significado: o batedor de ovos para aquela omelete que parecia básica, uma xícara maior para a sopa de envelopinho, o abridor de garrafas. Mas um aparelho com que se contava para todas as horas e parecia tão simples começa a virar um enigma: a pipoca queima e o macarrão fica cru.
domingo, 11 de setembro de 2011
Rockkonzert I
Toda banda muito nova parece envolver cabelos encaracolados, alguém tocando de paletó e tênis e uma quantidade inacreditável de energia, principalmente diante de uma platéia que os desconhece. O importante é enfrentar: enfrentar o frio e a balada semivazia, onde há tempo demais para registrar o aspecto de galpão do ambiente onde pessoas vagueiam com garrafas de cerveja, que a bebida e a boa música em geral obnubilam. Custa entender, mas nem todo mundo está ali por causa da música. Mas aqueles para quem a música vem de dentro são impelidos para o centro por essa força centrífuga chamada talento.
sábado, 10 de setembro de 2011
Se o meu apartamento falasse
A unha descascada, o sapato virado, o pó sobre os móveis. A lâmpada queimada, a roupa no varal vai saber há quantos dias, a geladeira vazia. O coador sem café, a lixeira transbordando, o pó debaixo dos móveis. A cama desarrumada, a roupa para a lavanderia, o marcador em uma página do livro que não me lembro de ter começado a ler. O incenso queimado, o CD fora da caixa, a lição de casa por fazer. A agenda em branco, porque é preciso lembrar também de anotar. O despertador sem pilha, a chave sem chaveiro, tudo espalhado fora da bolsa.
Início de namoro
Ela saíra de casa sem nenhum plano a não ser beber ou ouvir música; sequer chamara as amigas, para que os homens não se tornassem o tema da noite. Então ficou a maior parte do tempo sentada no bar, acompanhando o show pelo telão.
Ele fora arrastado pelos amigos, que insistiram em levá-lo junto mesmo sem ter grana para pagar. Chegou já tão bêbado que não notou a menina sentada ao seu lado; foi seu amigo quem a viu, pagou a conta, emprestou o carro e depois sumiu estrategicamente. Crentes de que nunca mais se veriam, foram direto pro motel.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Lost in Translation
Na superfície lisa das aparências, tudo estava bem. Ela se casara com um diretor de videoclipes com quem viajava o mundo e podia ver de perto as bandas preferidas da sua adolescência, e, como convém a uma jovem do Village, tinha uma grife de roupas, por causa da qual viajava até Tóquio. Havia sempre quem perguntasse quando ela atuaria de novo, mas nos filmes do pai ela sempre preferira ficar na produção. O que não estava bem é que, no final das contas, ela não fazia nada e vagueava insone entre quartos de hotel, não dizendo nada sobre o segredo.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Geladeiras
Existe uma relação entre uma geladeira e a personalidade do dono: algumas guardam presunto, bacon, maionese e coca-cola; outras têm água e manteiga; e outras, ainda, ostentam leite de soja, pão integral e salada verde. As primeiras pertencem a rapazes que só compram o que gostam, as segundas àquela gente que trabalha e estuda, e a terceira, a meninas que estão sempre de regime. Mas há uma que é incompreensível: quando se volta para a casa da mãe, nos feriados, e se abre aquela geladeira repleta de molhos e conservas esquisitas, uma monte de legumes e um assado em marinada.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Azaleias
Na manhã de domingo, primeiro dia do mês, saiu de casa para tomar o café da manhã como sempre. Achou que havia alguma coisa diferente, mas pensou que era o frio extremo e apertou o cachecol. O caminho de volta pela névoa foi ainda mais frio, e ela apressou o passo de olhos baixos. Mas, na manhã seguinte, meio adormecida no ônibus de segunda-feira, percebeu a rua abaixo do viaduto, normalmente cinza, coberta de rosa-choque nas margens ladeadas por arbustos. Por que ninguém gosta do inverno, pensou, olhando a linha na paisagem entre o céu escuro e a mancha rosa.
Assinar:
Postagens (Atom)









