segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Copacabana 0:09

E há momentos em que você sabe que não está diante de uma banda qualquer. O primeiro deles tem a ver com aquele “na casa da minha tia”, que desde então ponho pra tocar quando preciso de uma boa risada.
Ninguém me avisou, quando os fui ver pela primeira vez. E tampouco aviso quem arrasto comigo nas vezes seguintes: virou uma espécie de rito de passagem, e nem adiantaria explicar nada, porque com palavras não dá para entender. Todas as tentativas de descrição parecem tão desajeitadas diante do essencial: que nós somos parte da festa, e não meros espectadores.

E agora, Gregório?

Para que o sujeito reencarnaria um século mais tarde, desaparecendo em Praga para ressurgir em Brasília, apenas para sofrer o mesmo destino infeliz, de forma ainda mais degradante? – Saudoso o tempo em que a degradação do novo formato ainda era limitada ao espaço privado e não exposta no meio do shopping – Quem diria que abaixo de um inseto grotesco, na escala social da metamorfose, estaria um lanche de fast-food? E, a pergunta mais importante, quem comeu o sanduíche no final?
(Muito antes de escreverem Orgulho e Preconceito e zumbis, eles juntaram Kafka com canibalismo. Tenho certeza de que ele teria adorado.)

Sem palavras

No computador do escritório, onde ficava calada durante as horas mortas de serviço, ela buscava músicas novas para ouvir. Acostumada às declarações furiosas de músicos que se diziam roubados, fazia os downloads como uma pirraça. Até que, do link de um vídeo novo, ela chegou ao download do disco que, para seu susto, estava no site da própria banda. Naquela noite, no caminho para casa, a pasta nova no iPod dizia todas as coisas que ela jamais conseguira expressar, subitamente tão claras, e entre todas essa sensação de ser incapaz de dizer, de não ter voz nunca, de estar sempre sozinha...

Swing hum e meio

Uma letra extraordinariamente bem escrita, coesa e construída, que no entanto parece ter sido escrita em um único jato de inconformismo e raiva. Sem nenhum tipo de figura de linguagem, apenas dizendo o que vem à cabeça quando tudo parece que vai afundar, com exceção do paradoxo: fique calado para ser ouvido, abaixe a cabeça para te verem, e o mais evidente de todos – que eles fizeram exatamente o contrário do que fizeram de conta pregar, para se tornarem o que são. A única parte que eu confesso não entender é onde entra a piada com a castanha do Pará.

Lista de casamento

A vida é repleta de situações surreais, obrigações que nenhum sujeito esperava enfrentar. O amor se transmuta em pilhas de presentes e orçamentos de bufê, roupas jamais usadas em condições normais de temperatura e pressão e uma multidão de parentes desconhecidos. De tal maneira que ele deseja uma crise de amnésia temporária para não enfrentar a situação. E no final a angústia se transmuta em fotos alegres, sorridentes, que ninguém se lembra de ter tirado. (Nessas horas eu sempre me lembro de Slavoj Zizek: o único efeito prático de se apaixonar é ter que resolver problemas que não existiam antes.)

Ervilha/ Swing II a.k.a. Ié Ié Ié Jump

Talvez por causa do tempero de improviso jazzístico, que acabou se diluindo com o tempo; desse inconformismo que ainda é mais um sentimento mal contido do que uma idéia organizada em palavras; ou apenas por causa dessa energia caótica que qualquer faísca transforma em explosão criativa, mas o EP, de dez anos atrás, é uma delícia de se ouvir. Eles querem tocar sax e falar da injustiça social, surfar na internet e fazer solo de bateria, tudo ao mesmo tempo e sem te deixar tempo para respirar. É mesmo uma pena que algumas músicas não sejam mais tocadas ao vivo.

domingo, 27 de novembro de 2011

Dois Sorrisos



Existem datas, nem para todo mundo com felicidade. Mas cada história é única e tem valor, seja ela de amor ou de solidão. Como o tempo se encadeia e cada dia está ligado ao outro, talvez aquele dia dos Namorados não fosse realmente o motivo da celebração, mas uma data duas semanas antes – quando o Supremo Tribunal Federal reconheceu o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e sutilmente, como quem não quer nada, eles comemoram uma data na outra e marcam uma posição. Que só permaneçam conosco aqueles que acreditam que todos têm o direito de amar e ser felizes.

Descomplica

E há um momento, afinal, em que a gente cansa de pensar e precisa se mexer. Parar com essa história de ficar parada, sentada, escrevendo e simplesmente sair à rua, caminhando alheia ao congestionamento e ao coro das buzinas enquanto ri sozinha das coisas que acabou de compreender. Se guiar pelo sol, sem calcular os passos, chegar até o portão e andar entre carrinhos de bebê, atletas de fim de semana e crianças tomando sorvete e passar dez vezes na frente do palco agora vazio, mas tão cheio de lembranças. Afinal, tudo é tão simples, quando encarado com bom humor.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Receio do remorso

Há piadas que ninguém pode fazer se não quiser revelar quantos anos tem: comentários sobre a Cortina de Ferro, evocações do Plano Collor. Essas coisas que ficam na lembrança e só muitos anos mais tarde, em conversas de bar e fóruns do Orkut, a gente descobre que fazem parte da memória coletiva e nos afetam mais por mostrar a que geração pertencemos do que pelos efeitos na geopolítica.
Não adianta pensar no que não aconteceu ou no que poderia ter acontecido: o dinheiro da poupança que sumiu e a Perestroika são mais parte da nossa identidade do que da História.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Aconselho

Existem momentos preciosos, aos quais não se presta a devida atenção. Há quem prefira as lembranças grandiosas, as que se transformam em vídeos no Youtube - pedidos de casamento na roda de Copacabana, fogos de artifício, entradas na igreja. Mas há os pequenos instantes, e aquele primeiro raio de sol que encontra uma fresta na janela e ilumina o essencial: o restinho do sono compartilhado, o acordar ligeiramente mal-humorado que acaba num sorriso e o aconchego. Pode escurecer novamente, mas o sol sempre volta: ele não precisa ver nada, da distância em que se encontra - o amor não precisa de testemunhas.

Indiferença

Não deveria ser necessário esperar a conclusão de tudo para nos lembrar do que é fundamental. Quando a gente fica exausta, tantas vezes, por achar que precisa cuidar de tudo sozinha e no tempo e na ordem que o mundo nos impõe. Esse tempo e essa ordem de que o despertador nos recorda não existe. O que existe são os amigos e aqueles que nos carregam, nem que seja só até o palco de volta, nem que seja sem perceber, só para nos lembrar de que a vida é boa e há sempre alguma coisa nova para te fazer feliz.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Perca Peso 4:24

O mundo é cheio de imperativos. Mal chegamos à idade adulta e a vida se enche de obrigações chatas, pequenas tarefas sem sentido de que ninguém tinha nos avisado, serviços que nem desconfiávamos existir: o cabelereiro do cachorro, o afiador de facas, a lista de casamento. E consomem, dia a dia, a energia destinada antes ao que sonhávamos ser. A não ser quando decidimos pegar a lista de afazeres absurdos e tratá-la como o nonsense que ela é: bagunçar o sintagma, criar maiores nonsenses ainda e rir – rir do regime, da parentada, do Papai Noel e das contas pra pagar.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

The Strokes

Não deixa de ser uma estratégia inteligente, manter as expectativas baixas: basta Julian entrar no palco sóbrio e sorrindo que todo mundo já se dá por satisfeito. Depois ainda Fabrizio fala uma frasezinha em português, Nikolai se enrola numa bandeira, Albert brinda ao público; mas, antes de tudo, eles tocam bem, alternando as músicas dos quatro discos, durante uma hora sem tempo de respirar. Foram até doze horas de pé diante do palco, no estacionamento do parque, sem comer nem descansar direito, só porque você quer um dia contar aos seus netos que ouviu Last Night ser tocada ao vivo.

Garotas Suecas

Entre os brinquedos em que nós andamos, da mesma forma que eles, na mesma época em que eles, e já que tinham se tornado obsoletos e motivo de riso quando começou a bater a nostalgia, monta-se o palco. O sentimento atinge os lugares mais recônditos da nossa infância, até chegar ao que nós assistíamos entre bocejos nas tardes mortas de domingo: resta decidir se nós fingíamos gostar na época, se fingimos detestar depois ou se agora só aplaudimos para acompanhar os outros. A cultura pop forma-se por fenômenos inexplicáveis, e entre o cafona e o cult basta apenas um passo.

Falso retrato 1:21

Eles falam de alguém que parecia ser uma coisa, e era outra; que mentiu e transformou a tristeza num imperativo, não num estado ocasional do espírito. De repente o sol surge e revela, como num processo químico, o que já estava impresso, mas ainda invisível. Entre o caos de brigas e decepções, ressentimentos acumulados e súbitos acertos de conta, surge uma resolução que é antes uma disposição e que, encarada de frente, muda tudo. A questão não é se eles não passam pelos mesmos perrengues que todos nós, mas como eles conseguem fazer a felicidade parecer uma coisa tão simples.

sábado, 5 de novembro de 2011

Café com leite

Sempre tem um Coração Gelado. Alguém que, do seu castelo escondido, vê pessoas juntas e felizes e sente raiva. Elas nem se conhecem, só estão num mesmo wesite vendo um vídeo e sorrindo; ele então se dá ao trabalho de logar só para postar que a música é parecida com outra, que o nome da banda é tosco... Quando todo mundo resolve seguir o exemplo da própria banda e ignorar, ele ataca mais furiosamente, até alguém se irritar. Ele não ouviu nada de novo, nem de que ele goste: enfim, não ganhou nada além de uma migalha amarga de atenção.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Bolo

Alguém à direita do palco captou todo o som, mas oscilava tentando acompanhar o Xande que nunca para quieto. À esquerda alguém segurou a câmera com firmeza e os nove permanecem no enquadramento, lindos e alegres. E os vídeos vão para o Youtube sem que ninguém pense em cortar a parte em que o André errou, afinal é impossível não achar graça naquele riso sem graça. Então se converte em MP3 e é uma pena que eles não toquem no show seguinte, porque já decoramos a letra: gostosa, pra cima, com um nome que faz pensar nos títulos de Idem...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Raul

O mistério não é saber quem foi o primeiro palhaço que gritou “Toca Raul”. É saber quem foi o segundo.
Então toda banda precisa encontrar uma solução. Alguns tocam Raul, infelizmente. Outros se atiram na orgia e gritam eles mesmos “Toca Raul” no meio da letra, para aplacar a gana da turma maluco beleza. Outros partem para a ofensa e fazem uma música explicando por que eles não tocam Raul, que de quebra fornece uma descrição completa daquele povo acampado no prédio da FFLCH.
E se, quando alguém gritasse o famigerado, a banda tocasse apenas uma música engraçada chamada Raul?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Do mesmo ar

Queríamos falar da nossa angústia, de Kafka e do que sobrou da Perestroika; dos cruzados confiscados, da castanha e do que sobrou da mudança. Mas sempre tem alguém que quer ouvir falar de amor. Pior ainda, da falta de amor: da menina que não nos dá a menor bola e passa sem olhar. Essa menina nem precisa existir: não é difícil inventá-la. E então nós escrevemos a música, só para não dizerem que não somos melosos. Mas quem prestar atenção vai perceber que só cantamos sobre amores felizes: completamente imprestáveis para quem quiser ouvir sobre o seu próprio coração partido.

O Tempo

O princípio é quase pueril: eu quero te ver, mas o tempo não passa, e eu tenho que esperar. E o tempo se transforma no Tempo, esse monstro mal-humorado e cínico, que só quer ver o outro triste. Então eles desaceleram e aceleram, rodam em câmera lenta e em tempo real simultaneamente e fazem de conta que estão só de brincadeira: contrariam o próprio Tempo e o torcem a seu favor, ele vira um grafite na parede. Não é todos os dias que um conceito fenomenológico se esconde numa canção de amor. (Pueril é quem se deixa levar pelas aparências.)

P.S.: Em homenagem ao projeto Rotas Musicais, todos os textos deste blog durante o mês de novembro serão inspirados por músicas do Móveis Coloniais de Acaju. Se você ainda não ouviu falar do Móveis, acesse http://www.moveiscoloniaisdeacaju.com.br/, baixe o álbum C_mpl_te e preencha essa lacuna imperdoável na sua vida.